Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Coelho teria por então seus vinte anos. Era elegante e bem parecido. Tinha sedução no olhar, e graça especial na conversação. Sabia de cor paginas de Palmeirim-da Inglaterra e as repetia tão possuído das gentilezas namoradas que enchem a obra de Francisco de Moraes, que mais valia ouvi-las ao moço português do que as ler no próprio autor. Sentindo particular predileção pelos nobres em cujas relações se ufanava de aparecer ligado, foi pouco a pouco ascendendo da esfera opaca onde principiara a vida, às alturas douradas em que calculava colocar-se definitivamente como um dos astros que formavam a constelação. Seus dotes pessoais granjearam-lhe as inclinações das jovens damas e a benevolência dos cavalheiros de seu conhecimento. Por então d.Damiana, solteira ainda, passava temporadas, como já se referiu, em casa de João da Cunha. Era muito nova mas trazia já em torno de se um circulo de adoradores em cujo numero Coelho soube aparecer tão conspicuamente que, passados alguns meses, os outros bateram em retirada, deixando-o senhor exclusivo do campo. É porém de notar que nem a idade de d. Damiana nem os costumes da época deram lugar a que ela tivesse conhecimento ou sequer suspeita dessa luta travada entre os primeiros jovens assim agricultores como comerciantes da vila. Contavam-se por sua raridade as reuniões familiares que se efetuavam na roda do ano ainda nas casas ricas; e mesmo nessas reuniões era tão respeitoso e cortês o trato entre os cavalheiros e as damas que, para assim escrevermos, o amor, ao contrário do que hoje acontece em nossos salões, mais se fazia adivinhar do que declarava. Todavia, por ocasião de uma festa do orago da freguesia, em que houve cavalhadas e fandango, na qual se achou d. Damiana, pode Coelho fazer-lhe protestos de amor, que, em sua mente, foram por ela bem aceitos. Mas veio logo o desengano com a recusa que o leitor sabe. Sendo até ai um dos primeiros amigos da nobreza e seu comensal, converteu-se Coelho em seu acérrimo inimigo. O ódio que começou a votar a João da Cunha, foi tanto mais intenso e profundo quanto tinha ele para se que nenhum outro, a não ser o senhor-de-engenho, poderia triunfar de seu triunfo. O golpe que a desgraça vibrara em seu afeto, o fez ainda mais injusto para com aquele que lhe dera a mão no principio da carreira. Coelho assegurava que d. Damiana fora constrangida a renunciar à afeição que consagrava a ele, e casara com o sargento-mór, não mais livremente do que fizera a dita renuncia. Minúcias são estas em que escrupuliso entrar. O coração da mulher assemelha-se à gruta profunda e inacessível: quem empreende descer-lhe ao fundo, corre vários riscos, sendo o primeiro deles o de dar com estranhos reptis não classificados ainda pela fisiologia. A verdade é que o mercador nunca mais pode apagar do coração a imagem suavíssima de d. Damiana. Fora aquele o seu primeiro amor. O objeto dele insculpira-se-lhe por tal modo na alma, que fazia parte integrante do seu ser o olhar, o sorriso, o gesto, a voz da gentil dama. Há paixões fatais que acompanham toda a vida aqueles a que se apegaram como a Nesso a túnica fatídica. O negociante era vitima de uma paixão semelhante. Às vezes a chama incessante abrandava; a vida agitada costuma trazer este efeito aos sentimentos; mas bastava encontrar suas vistas com as da senhora-de-engenho, para que logo sentisse reacender-se-lhe mais intensamente o fogo, um momento diminuído ou serenado. Enfim a idéia de a possuir – não importava quando – nunca mais o deixou, e essa ilusão, esse desconhecido que vagamente lhe prometia a felicidade, alentava a labareda que ele trazia como deliciosa chaga no coração, iluminava-lhe a fantasia como estrela que fulge em canto de céu prenhe de tempestades. O barcaceiro deu o andar para descer após o marchante, mas foi atalhado pelo mercador que lhe disse:

- Fica, Bartolomeu. Quero perguntar-te uma coisa: Em caso de aperto, amanhã ou depois, terás animo para te fazeres à vela novamente em direitura ao Recife?

- Agora mesmo abro as asas à Borboleta e largo-me por estes mares afora; assim o patrão ordene. Eu sou pau para toda obra. Conjeturo que amanhã a esta hora não exista mais um nobre em Goiana a não ser amarrado com boas cordas. Mas, como é preciso contar também com o mal, e não unicamente com o bem, ordena a prudência que tenhamos prontos os meios de escapar-nos aos inimigos se a eles pertencer a vitoria. Ora, nenhum outro se me afigura mais pronto nem mais eficaz do que a viagem pelo rio.

- Vosmecê tem razão. Montado na Borboleta, só por um oculo poderão ver-me os pés-rapados. E as olarias de Jorge Cavalcanti?

- Que tem elas?

- Tem bocas de fogo sobre o rio.

- Taparemos essas bocas de fogo com as balas dos nossos bacamartes. Tens então animo para passar em frente às trincheiras, Bartolomeu?

Porque não, seu Coelho? Vosmecê não conhece ainda este cabra com quem está falfando. Ora escute: Nesta mesma viagem, de que acabo de chegar, mandaram-me, quando eu ia, da fortaleza de Itamaracá um chuveiro de balas, que a outro que não fora o Bartolomeu teria feito perder a tramontana. Mas eu peguei na cana-do-leme da Borboleta e fiz com ela tais cortes e recortes por cima das ondas que nem uma tainha seria capaz de a ganhar. Eram balas de uma banda e da outra, pela popa e pela proa; mas dentro só o que caia eram as escumas dos mares que ela atravessava como jangadinha do alto.

Pois bem, Bartolomeu, disse Coelho a cabo de alguns minutos de silencio em que, ao parecer, estivera meditando sobre grave assunto. Fica assentado que dormirás hoje a bordo da Borboleta, e de lá não virás à terra senão por ordem minha. Vai ver tua mulher e teus filhos, que deves estar impaciente por abraçá-los. Às nove horas recolhe-te à embarcação. acharás já ai todas as provisões e munições necessárias para a viagem.

- Mal tinha o negociante terminado estas palavras quando se fez ouvir do lado de fora descomunal ruído de povo, retinir de armas, rumor de passos de cavalo. Quase no mesmo instante as portas da loja se fecharam com estrondo, e logo após os caixeiros de Coelho corriam pelas escadas acima amedrontados e confusos. Que é isto? Que quer dizer isto? Inquiriu o negociante, vencendo sua surpresa, ao que primeiro penetrou na sala.

- A casa está cercada, e ai vem o juiz ordinário com ordenanças e oficiais do seu juízo.

No mesmo instante uma voz que soou aos ouvidos de Coelho como eco das gemonias infernais, fez ouvir a seguinte intimação:

- Da parte d’el-rei, componde a casa, que vimos fazer uma diligencia.

A esse tempo Cosme Bezerra assomava na porta da sala.

Trajava calções e casaca preta, meias de seda amarela, sapatos com fivelas douro. Trazia chapéu com pluma branca, e espada pendente do talim.

XXIV

Coelho foi ao encontro de Cosme Bezerra, e com irritante altivez que as circunstâncias atuais até certo ponto justificavam, rompeu o silencio que se seguira à intimação:

Da parte d’el-rei, que quereis em minha casa ao lusco-fusco e com este aparato de força, senhor juiz?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6667686970...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →