Por Eça de Queirós (1887)
O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparável:
- Tomai goma de Alexandria, açafrão de jardim, uma cebola da Pérsia e vinho negro de Emaús... Misturai, cozei... Deixai esfriar num vaso de prata... Colocai-vos numa encruzilhada, ao nascer do sol...
Mas emudeceu subitamente, com os braços abertos e a face pendida para as lajes. Penetramos no soberbo adro, chamado "Pátio das Mulheres"; e nesse instante terminavam as bênçãos que à sexta hora um sacerdote vem ali derramar, do alto da porta de Nicanor.
Severa, toda de bronze - ela deixava entrever, lá ao fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do santuário, refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas colegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos de branco - uns com uma trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas mudas de liras. E, por entre estas alas de homens prostrados, um grande velho emaciado vinha descendo devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...
A sua túnica justa de biso tinha a fímbria orlada de pinhas de esmeralda, alternando com guizos, que tiniam finamente; os pés sem sandálias e tingidos de henê, pareciam de coral; e ao meio da faixa que lhe cingia as costelas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol. Os fiéis ajoelhados, quedos, sem um murmúrio, quase pousavam nas lajes a cabeça escondida sob os mantos e sob os véus; e com as cores festivas, onde dominava o vermelho da anêmona e o verde da figueira, era como se o adro estivesse juncado de flores e folhagens, numa manhã de triunfo, para passar Salomão!
Com a barba aguda e dura levantada aos céus - o velho incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do ocidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado que se ouviam no fundo do santuário os mugidos lentos dos bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de jóias, atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol - e com o fumo branco veio rolando, tênue e cheirosa, sobre Israel, a bênção do Muito-Forte. Então os levitas, unissonamente, feriram as cordas das liras; das trombetas curvas subiu um grito de bronze; e todo o povo erguido, com os braços ao céu, entoou um salmo celebrando a eternidade de Judá... E subitamente tudo cessou; os levitas recolhiam pela escadaria de mármore sem um rumor dos pés nus; Eliézer de Silo e o rígido Gamaliel tinham desaparecido sob os pórticos; e o claro pátio em redor resplandecia suntuoso e cheio de mulheres.
Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos, que Topsius mirava neles, como num espelho, as pregas nobres da sua capa; todos os frutos da Ásia e as flores dos vergéis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas portas das câmaras rituais onde se perfuma o óleo, se consagra a lenha, se purifica a lepra; entre as colunas pendiam em festões, fios grossos de pérolas e de contas de ônix, mais numerosos que no peito de uma noiva; e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra colossais, pousadas nas lajes, enrolavam-se, cintilando e reclamando as dádivas, inscrições em relevo de ouro, graciosas como versos de cânticos - Queimai incensos e nardos; Ofertai pombas e rolas...
Mas o santo adro resplandecia de mulheres; e meus olhos bem depressa deixaram metais e mármores, para cativadamente se prenderem àquelas filhas de Jerusalém, cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas traziam no templo o rosto descoberto; ou apenas um fofo véu, de uma musselina leve como ar, à moda romana, enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das faces uma alvura de espuma, onde os olhos negros tomavam um quebranto
mais úmido, enlanguescidos pelas densas pestanas, alongados pela tintura de cipro. A abundância bárbara dos ouros, das pedrarias, envolvi-as numa radiância trêmula, desde os peitos fortes até aos cabelos mais crespos que a lã das cabras de Galaade. As sandálias, ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lajes uma melodia argentina, tanta era a graça concertada dos seus movimentos ondulados e graves; e os tecidos bordados, os algodões de Galácia, os finos linhos de cores que as cingiam, ensopados nas essências ardentes de âmbar, de malobatro e de bácaris, enchiam o ar de fragrância e de moleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam solenemente entre escravas vestidas de panos amarelos, que lhes traziam o pára-sol de penas de pavão, os rolos devotos em que está escrita a lei, sacos de tâmaras doces, espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples camisa de algodão de riscadinho multicor, e sem mais jóias que um rude talismã de coral, corriam, chalravam, mostrando nus os braços e o colo cor de medronho mal maduro... E sobre todas o meu desejo zumbia - como uma abelha que hesita entre flores de igual doçura!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.