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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O que eu sofri! O que eu corei! Corei diante da minha pobre Joana, da minha velhaama, um anjo cheio de rugas, que sabe so bretudo amar quando tem de perdoar! Corava diante das minhas criadas. Julgava-me feliz quando elas me sorriam, tremia quan do lhes viao aspecto sério. Dava-lhes vestidos, ensinava-lhes pen teados. Saiam às vezes de tarde, recolhiam alta noite; eu corava profundamente no meu coração, e sorria-lhes.

O olhar dos homens era-me insuportável: parecia-me envolver uma afronta. Imaginavaque era pública a aventura do meu coração, que era julgada como uma criatura de paixões fáceis, o que dava a todos o direito de me fazerem corar. Quantas vezes saí do teatro afogada em lágrimas! Analisava os gestos, os olhares, os movimentos dos lábios. «Fulana olhou-mecom desdém! Aquele. riu-se insolentemente, quando eu passei! Aqueloutra afectou não me ver.» Se numa modista, ao escolher um vestido, me diziam: «Esta cor é alegre, é bonita!» eupensava comigo: «Bem sei, aconselham-me as cores vivas, ruidosas, as cores do escândalo, o género artiste!» E saía, fechava os estores do meu coupé, chorava desafogadamente.

Não me atrevia a beijar uma criança; olhava-a com uma ter nura inefável, ia a tomá-lanos braços, mas dizia comigo: «Deixa esse pobre anjinho, não és bastante pura para lhe tocar! Devo dizer tudo. Corava diante do meu cocheiro! Sorria-lhe com o maior carinho: temia a todo o momento uma má resposta, uma audácia, uma palavra acusadora. Quando eu entrava para a carruagem, e de se erguia respeitosamente, eu ficava tão satisfei ta daquelaprova de atenção, que tinha vontade de o abraçar...

Acha odioso, não?Defino o meu estado por uma palavra precisa e terrível: quando meu marido me apertava expansivamente a mão, eu sofria tanto como se o outro me atraiçoasse!

Ai de mim! Quantas vezes quis eu consolar o meu orgulho, pen sando nas glóriasdramáticas do sofrimento e do martírio! Quan tas vezes me comparei às figuras líricas da paixão, que contam as legpndas da sua dor ao ruído das orquestras, à luz das rampas, e quesão Traviata, Lúcia, Elvira, Amélia, Margarida, Julieta, Desdémona! Ai de mim! Mas ondeestavam os meus castelos, os meus pajens, e o ruído das minhas cavalgadas? Uma pobre criatura que vive da existência do Chiado, que veste na Aline, que glorificações pode dar àsua paixão?

E depois é cruel, e é forçoso dizê-lo: há sempre um momento em que uma mulherpergunta a si mesma se realmente são as gran des qualidades morais do seu amante que a dominaram. Porque então haveria justificações. E há uma profunda humilação em nos sa consciência quando nos chegamos a convencer de que, se ama mos um homem, n ão foi só a nobreza das suas ideias e o ideal dos seus sentimentos que nos dominaram, mas um nãosei-quê, em que entra talvez a cor do seu cabelo e o nó da sua gravata. Sejamos francas: para que havemos de disfarçar a pequenez estreita das nossas inclinações? Para que havemos decolorir de ideal a origem vulgar das nossas preferências? Não quero dizer que as elevações morais não sejam um auxiliar poderoso à simpatia instintiva; mas o que na realidade nos domina é o exterior de um homem. Que todas as que lerem estas confidências dolorosas seconsultem no silêncio do seu coração e digam o que determinou nelas a sensação; se foi o carácter ou se foi a fisionomia. E as que forem francas dirão que na sua vida influiu talvezmais a cor de um fraque, do que a elevação de um espírito.

Sim, digo-o francamente, daqui deste canto do mundo, em que o ruído das coisas tem o som oco da tampa de um esquife; os desva rios do coração em nós outras, nada os absolve,quase nada os explica.

Fui nova; tive, como todas, as minhas horas de tédio assalta das de quimeras; tive osmeus romances íntimos, que nasciam, so friam, morriam entre duas flores do meu bordado. Criei aventuras, dramas apaixonados e fugas dramáticas aconchegadamente enco lhida na minha poltrona, ao canto do fogão.Conheci mais tarde muitos caracteres femininos e a história de muitas sensibilidades.



(continua...)

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