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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Meteu a corta-mato, saltando um cancelo. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardara, pelo azul alegre que reaparecia, e pôr toda aquela justiça feita à pobreza da serra.

-Não perdeste hoje o teu dia, Jacinto – disse eu, batendo, com uma ternura que não disfarcei, no ombro do meu amigo.

-Que miséria, Zé Fernandes! eu nem sonhava... Haver pôr aí, à vista da minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível....

Estávamos entrando na alameda. Um raio de sol, saindo de entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao fundo, uma viva tira de ouro. O clarim dos galos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um frêmito alegre e doce.

-Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio... Nem me lembro o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara duma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só pôr a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído pôr uma chaga! Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de Verão. E a serra, hoje, zás! De repente, descobre a sua grande úlcera... É talvez a tua preparação para S. Jacinto.

Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete:

-É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus,é das que eu posso curar! Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos alegremente a escadaria do casarão.

XI

No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde então, tantas vezes trotei pôr aquelas três léguas entre a nossa e a velha alameda dos Jacintos, que a minha égua, quando a desviava dessa estrada familiar, conduzindo-a a uma cavalariça familiar (onde ela privava com o garrano do Melchior), relinchava de pura saudade. Até a tia Vicência se mostrava vagamente ciumenta daquela Tormes, para onde eu sempre corria, daquele Príncipe de quem incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os pitéus, e as quimeras agrícolas. Já um dia com um grão de sal e ironia – o único que cabia num coração todo cheio de inocência -, ela me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:

-Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer esse Jacinto... Traz cá essa maravilha, menino!

Eu rira:

-Sossegue, tia Vicência, que a trarei agora, para o dia dos meus anos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pátio, e vem aí toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para o Jacinto.

Eu, com efeito, já convidara meu Príncipe para este “natalício”. E de resto, convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aqueles senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que ele conhecesse algumas mulheres, algumas daquelas fortes raparigas dos solares serranos, porque Tormes tinha uma solidão muito monástica; e o homem, sem um pouco do eterno Feminino, facilmente se endurece e ganha uma casca áspera como a das árvores, na solidão.

-E esta Tormes, Jacinto, esta tua reconciliação com a Natureza, e o renunciamento às mentiras da Civilização é uma linda história... Mas, caramba, faltam mulheres!

Ele concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:

-Com efeito, há aqui falta de mulher, com M grande. Mas essas senhoras aí das casas dos arredores... Não sei, mas estou pensando que se devem parecer com legumes. Sãs, nutritivas, excelentes para a panela – mas, enfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam às flores são sempre as mulheres das cortes, das Capitais, às quais, invariavelmente, desde Hesíodo e Horácio, se rendem os poetas... e evidentemente não há perfume, nem graça, nem elegância, nem requinte, numa cenoura ou numa couve... Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.

-Eu te digo... A tua vizinha mais chegada, a filha do d. Teotônio, com efeito, salvo o respeito que se deve à casa ilustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, da Quinta da Loja, também não tentaria nem mesmo o precisado santo Antão. Sobretudo se se despisse, porque é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos nutritivos.

-Tu o disseste: espinafre!

-Temos também a D. Beatriz Veloso... Essa é bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem falante! Fala como as heroínas do Camilo. Tu nunca leste o Camilo... e depois, um tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se fala em D. Maria... Enfim, um horror! E perguntas pavorosas. “V. Exª, Sr. Doutor, não se delicia com Lamartine?” Já me disse esta, a indecente!

-E tu?

(continua...)

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