Por Raul Pompéia (1881)
O sol cadente lançava-lhe frechas de luz aos feixes, como o velho combatente que não quer descansar no fundo da igaçaba antes de ter esvaziado o carcás. A multidão respondia, agitando alegremente os braços; saudavam em despedida o astro com as canções de guerra; e os hinos misturavam-se de um modo incrível aos derradeiros fogos do dia. O rumor crepitante dos maracás fazia crer que a tribo, em marcha, caminhava ardendo como serpente de fogo.
Depois, tudo se apagava e a vozeria e o chocalhar dos maracás arrefecia um pouco, somava-se com o uníssono vasto e rumoroso da natureza; por fim, na última colina, viam-se rutilar as penas vivamente coloridas dos cocares e das túnicas... E o sol a inundar balsedos e balsedas, sem mais ferir um guerreiro.
A horda andava já para além.
Ouviam-se ainda os sons do maracá, mas como sopros interrompidos que iam falar nas quebradas o adeus àquelas cabanas da aldeia que muitos não tornariam a ver.
II
Cendi ficou chorando...
No cimo de um penhasco, olhava. Todos tinham sumido e ela ficara no mesmo posto.
O vento levantava-lhe os longos cabelos e passava por eles como pela rama franjada da palmeira; o sol riscava-lhe o contorno esplêndido das formas com friso de ouro. O que esperas. Cendi? Louca, eles se foram. Para aquelas bandas vês somente a serra azul... azul. Eles se foram.
E a pobre Cendi desceu da pedra, chorando cada vez mais.
Os espíritos malignos gritavam-lhe aos ouvidos que ela perdera para sempre o seu dileto, o seu noivo.
Rompendo a brenha, ela partia os galhinhos secos e os galhos estalavam como a risada escarninha dos anhangás. Um presságio pesava-lhe no coração, e, com aquele sol que ia a deitar-se, fugir-lhe-ia a última energia para sofrer. A índia deixou-se cair abatida, derreada num velho madeiro que desabara com a última tempestade. Queria meditar; a cabeça pendeu-lhe, a vista foi-lhe pousar na epiderme macia e amorenada dos joelhos. Em torno desses joelhos, como em coroa, circulavam cintos primorosos de penas de guará brancas e róseas.
Dos grandes olhos negros da índia escorriam lágrimas que lhe molhavam os seios e gotejavam depois como o orvalho pelas extremidades dos limões. Cendi fitava aquelas penas, as penas do tapacurá.
- Tapacurá da minha virgindade, soluçou ela, morrerei contigo.
III
Eram ditas estas palavras quando ouviu-se um barulho estranho.
Não fora o trinar da passarinhada, pressentindo a noite, não fora o urro ameaçador da onça, não fora o guizo das cascavéis.
Cendi o conhecia.
- A voz do pajé!! murmurou estremecendo.
Em seguida acrescentou tristemente.
- Venha, venha esse mensageiro de desgraças e anuncie a minha viagem para a morada dosheróis!... Cendi há de ver-te querido Taigaíba! há de ver-te.
Vinha bem próxima a noite. Apenas uma poeira luminosa polvilhava o ocidente. O sol desaparecera. O pajé, mastigando rezas e evocações sinistras, abandonou o antro.
Cendi o viu apresentar-se horripilante.
- Cendi, disse ele, sem preâmbulos, em tom profético, os guerreiros juncaram o campo debatalha com os seus corpos, e os inimigos se hão de banquetear com eles. Taigaíba perecerá também; tu não podes pertencer-lhe.
- Cala-te! Cala-te, morcego! O sol entrou, e tu saís-te para desgraçar os guerreiros! Vai-te e deixa-me chorar!
- Não fales assim, Cendi!... não maltrates o eleito de Tupã, que é quem me anunciou estesmales.
- Tupã sabe que eu sofro... que eu morro...
- Tupã diz que o tapacurá de Cendi deve cair a meus pés.
Assim falando, na sua toada de profeta, o sacerdote das trevas agitava horrivelmente as asquerosas peles que o cobriam, achegava-se para a bela Cendi com um vagar que afetava de majestoso e era repugnante.
Cendi teve medo. Levantou-se. Correu.
O pajé era velho, mas forte. Correu para ela. Cendi mergulhou-se nas brenhas, gritando. O pajé perseguiu.
Escurecia já e naquela hora as corujas, adejando pausadamente, cortavam o ar à cata das avezinhas retardatárias.
Cendi, és avezinha, foge do pajé.
Cendi correu muito, muito; saltou arisca como uma veada todos os espinheiros que lhe fechavam o caminho, todos os regos que as enxurradas rasgavam fundos no seio da mata. O pajé saltara os espinheiros, saltara os valados. Quando Cendi parou cansada, aí estava o pajé. Horrível!
Cendi estava perdida.
- Cendi, Cendi, rosnou o pajé, ouve a voz de Tupã! Paraste cansada? É Tupã que te prende. Tupã diz que me pertence o tapacurá de Cendi...
A índia, que se agarrara a uma árvore para não cair, ergueu o punho para o céu e cortou a frase ao pajé.
- Tupã mente!
IV
- Vais hoje morrer. Teus lábios ofenderam a Tupã, como a folha de urtiga ofende a mão que atoca. Antes de pratear-se a noite com o luar que vai nascer, deve estar morta Cendi.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.