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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

O sol cadente lançava-lhe frechas de luz aos feixes, como o velho combatente que não quer descansar no fundo da igaçaba antes de ter esvaziado o carcás. A multidão respondia, agitando alegremente os braços; saudavam em despedida o astro com as canções de guerra; e os hinos misturavam-se de um modo incrível aos derradeiros fogos do dia. O rumor crepitante dos maracás fazia crer que a tribo, em marcha, caminhava ardendo como serpente de fogo.

Depois, tudo se apagava e a vozeria e o chocalhar dos maracás arrefecia um pouco, somava-se com o uníssono vasto e rumoroso da natureza; por fim, na última colina, viam-se rutilar as penas vivamente coloridas dos cocares e das túnicas... E o sol a inundar balsedos e balsedas, sem mais ferir um guerreiro.

A horda andava já para além.

Ouviam-se ainda os sons do maracá, mas como sopros interrompidos que iam falar nas quebradas o adeus àquelas cabanas da aldeia que muitos não tornariam a ver.

II

Cendi ficou chorando...

No cimo de um penhasco, olhava. Todos tinham sumido e ela ficara no mesmo posto.

O vento levantava-lhe os longos cabelos e passava por eles como pela rama franjada da palmeira; o sol riscava-lhe o contorno esplêndido das formas com friso de ouro. O que esperas. Cendi? Louca, eles se foram. Para aquelas bandas vês somente a serra azul... azul. Eles se foram.

E a pobre Cendi desceu da pedra, chorando cada vez mais.

Os espíritos malignos gritavam-lhe aos ouvidos que ela perdera para sempre o seu dileto, o seu noivo.

Rompendo a brenha, ela partia os galhinhos secos e os galhos estalavam como a risada escarninha dos anhangás. Um presságio pesava-lhe no coração, e, com aquele sol que ia a deitar-se, fugir-lhe-ia a última energia para sofrer. A índia deixou-se cair abatida, derreada num velho madeiro que desabara com a última tempestade. Queria meditar; a cabeça pendeu-lhe, a vista foi-lhe pousar na epiderme macia e amorenada dos joelhos. Em torno desses joelhos, como em coroa, circulavam cintos primorosos de penas de guará brancas e róseas.

Dos grandes olhos negros da índia escorriam lágrimas que lhe molhavam os seios e gotejavam depois como o orvalho pelas extremidades dos limões. Cendi fitava aquelas penas, as penas do tapacurá.

- Tapacurá da minha virgindade, soluçou ela, morrerei contigo.

III

Eram ditas estas palavras quando ouviu-se um barulho estranho.

Não fora o trinar da passarinhada, pressentindo a noite, não fora o urro ameaçador da onça, não fora o guizo das cascavéis.

Cendi o conhecia.

- A voz do pajé!! murmurou estremecendo.

Em seguida acrescentou tristemente.

- Venha, venha esse mensageiro de desgraças e anuncie a minha viagem para a morada dosheróis!... Cendi há de ver-te querido Taigaíba! há de ver-te.

Vinha bem próxima a noite. Apenas uma poeira luminosa polvilhava o ocidente. O sol desaparecera. O pajé, mastigando rezas e evocações sinistras, abandonou o antro.

Cendi o viu apresentar-se horripilante.

- Cendi, disse ele, sem preâmbulos, em tom profético, os guerreiros juncaram o campo debatalha com os seus corpos, e os inimigos se hão de banquetear com eles. Taigaíba perecerá também; tu não podes pertencer-lhe.

- Cala-te! Cala-te, morcego! O sol entrou, e tu saís-te para desgraçar os guerreiros! Vai-te e deixa-me chorar!

- Não fales assim, Cendi!... não maltrates o eleito de Tupã, que é quem me anunciou estesmales.

- Tupã sabe que eu sofro... que eu morro...

- Tupã diz que o tapacurá de Cendi deve cair a meus pés.

Assim falando, na sua toada de profeta, o sacerdote das trevas agitava horrivelmente as asquerosas peles que o cobriam, achegava-se para a bela Cendi com um vagar que afetava de majestoso e era repugnante.

Cendi teve medo. Levantou-se. Correu.

O pajé era velho, mas forte. Correu para ela. Cendi mergulhou-se nas brenhas, gritando. O pajé perseguiu.

Escurecia já e naquela hora as corujas, adejando pausadamente, cortavam o ar à cata das avezinhas retardatárias.

Cendi, és avezinha, foge do pajé.

Cendi correu muito, muito; saltou arisca como uma veada todos os espinheiros que lhe fechavam o caminho, todos os regos que as enxurradas rasgavam fundos no seio da mata. O pajé saltara os espinheiros, saltara os valados. Quando Cendi parou cansada, aí estava o pajé. Horrível!

Cendi estava perdida.

- Cendi, Cendi, rosnou o pajé, ouve a voz de Tupã! Paraste cansada? É Tupã que te prende. Tupã diz que me pertence o tapacurá de Cendi...

A índia, que se agarrara a uma árvore para não cair, ergueu o punho para o céu e cortou a frase ao pajé.

- Tupã mente!

IV

- Vais hoje morrer. Teus lábios ofenderam a Tupã, como a folha de urtiga ofende a mão que atoca. Antes de pratear-se a noite com o luar que vai nascer, deve estar morta Cendi.

(continua...)

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