Por Adolfo Caminha (1893)
Tinham-se apagado as luzes da cidade e pouco a pouco, imperceptivelmente, como numa mágica, sucediam-se as nuances, cada vez mais claras, esbatendo o contorno das coisas há pouco difundidas numa meia-tinta escura. Ia-se fazendo gradativamente a majestosa mise-en-scène do dia, clarões rasgavam-se de um e de outro lado do horizonte, incendiando a fachada dos edifícios e o cabeço dos montes longínquos, iluminando tudo...
Ao passarem pela Imaculada Conceição, a normalista olhou por entre as grades do colégio. Lá estavam, como antes, sombrios e silenciosos, os quatro pés de tamarindo, numa imobilidade tímida e respeitosa. Ouvia-se lá dentro o coro abafado das educandas — ora pro nobis... ora pro nobis. Maria teve um estremecimento, um vago desejo de viver como as irmãs de caridade; mas passou logo...
Ia vestida de preto, com o pescoço e a cabeça envolvidos num fichu cor de creme, segurando o Manual da Missa.
João ao lado fumava distraidamente, muito preocupado.
Chegaram à praça do Asilo. O grande edifício, à esquerda, abria as janelas sonolentas para o descampado. Havia luz dentro. À direita, no meio da praça, a “cacimba do povo”, cor de tijolo, em forma de quiosque, desolada àquela hora, tinha um aspecto misterioso quase lúgubre. E adiante, lá longe, por trás da floresta baixa e espessa, branquejavam os morros do alto Cocó.
Já era dia. Mulheres em tamancos passavam para a cidade falando alto, de cachimbo no queixo, cuia de hortaliças na cabeça, ar desenvolto, xale trançado.
João da Mata perguntou a uma delas “se ainda estava longe o mestre Cosme?”
— Um, um, respondeu a mulher, meneando a cabeça, sem tirar o cachimbo da boca.
E voltando-se:
— Está vendo aquele cercado lá adiante, aquela casinha branca na encruzilhada? Pois é ali. — Obrigado.
Corria um ar fresco e matinal. Revoadas de periquitos, num vôo de flecha, cortavam a limpidez da atmosfera e desciam de um e de outro lado da estrada sobre o matagal espesso e verde. As primeiras chuvas do ano tinham fecundado a terra cuja exuberância ostentava-se agora prodigiosamente na esplêndida paisagem que os olhos de Maria do Carmo viam com admiração. Sentia-se um fartum de terra úmida que fazia gosto. As matas da Aldeota, de um verde-gaio pitoresco, estendiamse por ali afora, a perder de vista, eriçadas pelo terral, sob a larga irradiação do sol nascente.
Aquela estrada branca de areia, larga e interminável, desenrolava-se aos olhos da normalista como uma via-láctea de ilusões, como um caminho de ouro que a conduzisse a uma outra vida, completamente outra daquela que até ali vivera, a uma vida sossegada, sem hipocrisias e sem traições, sem dores e sem lágrimas...
Fazia-lhe bem, como um tônico, o ar fresco da manhã que lhe bafejava o rosto. Sentia-se melhor respirando aquele ar, bebendo toda a selvagem frescura do campo, todo o delicioso, o inefável perfume que se levantava dos crótons e das salsas-bravas.
— Que dizes a isto, hein? perguntou João bruscamente, apontando o campo. Vais engordar minha filha, vais passar bem. Para longe a tristeza, para longe as mágoas, e deixa correr o marfim.
E descrevendo um círculo com a mão espalmada:
— Como está isto bonito!
Não há notícia de inverno igual. Mete inveja a quem mora naquele inferno da cidade. Uma delícia, Maria, isto é que é vida! O que vais engordar!
Aproximaram-se da casinha de mestre Cosme. Vacas babujavam silenciosamente e voltavam a cabeça com uma vagarosa melancolia no olhar. Os velhos já estavam de pé na porteira do cercado.
— Ora muito bom-dia! saudou o amanuense.
— Louvado seja N. S. Jesus Cristo, correspondeu tia Joaquina recuando. — Então é esta a sua afilhada?
— Esta mesma, tia Joaquina. Moça feita e... bonitona, como está vendo.
— Entrem, entrem, convidou mestre Cosme solícito.
— Sim senhor! fez a velha admirada. Bonita mesmo, pode dizer! Coitadinha, parece que vem tão cansada...
Maria teve um sorriso consolado. Estava, com efeito, cansada e pálida.
Houve logo um princípio de intimidade entre ela e os velhos que não cessavam de contemplar o seu belo perfil de noviça envolto numa penumbra de melancolia.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.