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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O sacristão olhou tristemente para as mãos cheias de ampolas pelo desuso do exercício a que o padre o forçara, e sacudiu a desanimada cabeça. S. Rev.ma não percebeu aquela muda e eloqüente linguagem, e injungiu quase com dureza:

— Vamos, seu madraço, vamos aproveitar a fresca da tarde.

Macário fora aproveitar a fresca, mas estava no seu direito de resmungar, e foi resmungando. Aquilo já passava de caçoada! Um fomento de rebeldia estava a espicaçar-lhe o fígado... mas era um homem de juízo e compreendia que ante a obstinação cabeçuda do padre vigário de nada serviria persistir na teima de voltar para a vila. A canoa era uma só: ou havia de subir o Canumã ao sabor de padre Antônio ou de descê-lo como o pretendia e desejava o sacristão. O padre era o dono da montaria porque a tomara de aluguel com o dinheiro do seu bolso (que infelizmente o João e o Pedro lhe deixaram), e quando mesmo Macário o quisesse forçar a desistir da empresa, coisa, aliás, de que Nossa Senhora do Carmo o livrasse! era certo ser o vigário um rapaz sacudido e valente, de pulso forte e ânimo inteiro. Quanto a voltar sozinho por terra, não era idéia que se demorasse dois segundos na cabeça de um homem sensato. Macário, especialmente e de nascença, votava invencível ojeriza às onças, às queixadas e aos tamanduás que passeiam o sertão do Amazonas com a sem-cerimônia de quem conhece os seus domínios; e ele, o filho da lavadeira de Manaus, não contava entre os seus planos de futuro, ruminados ao cair da tarde, saboreando o cachimbo em frente à casa da Luísa Madeirense, o de ser estraçado por uma vara de caititus, para regalo de urubus vorazes, ou de perder o último alento no abraço apertado do tamanduábandeira, de unhas cortantes como navalhas. Se a perspectiva de ser banquete de tapuios bravos, embora em serviço de Cristo Crucificado, não lhe sorria muito, posto o lisonjeasse uma vaga esperança de ser recebido em boa paz por milagre de Nossa Senhora e do Senhor São Macário, menos o favoneava a empresa de galgar léguas e léguas por caminhos ínvios, por florestas intrincadas, por insondáveis gapós, trepando serras onde as onças moram, vadeando lagoas onde se ocultam sucurijus de enorme boca, palmilhando sobre espinhos, onde se aninham caninanas, e penetrando grutas onde habita o maracajá de súcia com a surucucu, para, por fim, se viesse a sair dessa impossível peregrinação, chegar morto de cansaço, doente e desmoralizado à sua saudosa e sempre lembrada Silves. Nada, antes morrer de uma só vez, flechado por um selvagem, ganhando foros de tartaruga. Era mais simples e não cansava tanto. Contemporizaria, sujeitar-se-ia ao insano capricho do padre vigário até que a Providência lhe oferecesse ocasião de pôr em prática o hábil maquiavelismo, de que tantas vezes colhera inesperados resultados.

(continua...)

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