Por Aluísio Azevedo (1881)
— Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra coisa...
— Não! queria só que o senhor me dissesse como adora a Deus!
— Deixe-se disso homem, deixe Deus em paz! Ora para que lhe havia de dar!...
— Mas, nesse caso, o senhor não tem religião!
— Tenho, tenho...
— Pois não parece!... Pelo menos não devia fazer tão pouco caso das rezas, que nos foram ensinadas pelos apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...
Raimundo não pôde conter uma risada, e, como o outro se formalizara, acrescentou em tom sério “que não desdenhava da religião, que a julgava até indispensável como elemento regulador da sociedade. Afiançou que admirava a natureza e rendia-lhe o seu culto, procurando estudá-la e conhecê-la nas suas leis e nos seus fenômenos, acompanhando os homens de ciência nas suas investigações, fazendo, enfim, o possível para ser útil aos seus semelhantes, tendo sempre por base a honestidade dos próprios atos”.
Montaram de novo e puseram-se a caminho. Uma cerrada conversa travou-se entre eles a respeito de crenças religiosas; Raimundo mostrava-se indulgente com o companheiro, mas aborrecia-se, intimamente revoltado por ter de aturá-lo. Da religião passaram a tratar de outras coisas, a que o moço ia respondendo por comprazer; afinal veio à baía a escravatura e Manuel tentou defendê-la; o outro perdeu a paciência, exaltou-se e apostrofou contra ela e contra os que a exerciam, com palavras tão duras e tão sinceras, que o negociante se calou, meio enfiado. Entretanto, o guia cavalgava na frente, distraído, cantando para matar o tempo:
“Você diz que amor não dói
No fundo do coração!...
Queira bem e uiva ausente...
Me dirá se dói ou não!...”
Caminharam meia hora em silêncio. O dia declinava, os primeiros sintomas da noite levantavam-se da tenra, como um perfume negro, as aves refugiavam-se no seio embalsamado da floresta; a viração fresca da tarde eriçava os leques das palmeiras, enchendo os ares de um doce murmúrio voluptuoso.
— Tenho pairado tanto, disse por fim Raimundo com certa perplexidade, e todavia não tratei do que mais me interessa ..
— Como assim?...
— Lembra-se o senhor que, outro dia, pedi-lhe uma conferência em seu escritório, e, ou porque o meu amigo se esquecesse, ou porque mesmo não houvesse ocasião, o certo é que não chegamos a falar, e no entanto, o assunto é de suma importância para ambos nós...
— E o que vem a ser?
— E um grande favor, que tenho a pedir-lhe...
Manoel abaixou a cabeça, contrafazendo o embaraço em que se via.
— Trata-se de alguma questão comercial?... perguntou.
— Não senhor; trata-se de minha felicidade...
— E a mão de minha filha que deseja pedir?
— É...
— Então... tenha a bondade de desistir do pedido...
— Por quê?
— Para poupar-me o desgosto de uma recusa...
— Como?!...
— É natural que o senhor se espante, concordo; dou-lhe toda a razão; está no seu direito! O senhor é um homem de bem, é inteligente, tem o seu saber, que ninguém lho tira, e virá sem dúvida a conquistar uma bonita posição, mas...
— Mas... Mas, o que?
— Desculpe-me, se o ofende tal recusa de minha parte, mas creia, ainda mesmo que eu quisesse, não podia fazer-lhe a vontade...
— Está já comprometida talvez... Bem! Nesse caso, esperarei... Resta-me ainda a esperança!...
— Não é isso... E peço-lhe que não insista.
— Não quer separar-se da menina?
— Oh! O senhor maritiza-me!...
— Também não é?... Então que diabo! Terei, sem saber, alguma divida de meu pai, que haja de rebentar por ai, como uma bomba?...
— Que lembrança! Se assim fosse eu seria um criminoso em não o ter nunca prevenido. O que o senhor possui está limpo e seguro! Presto contas quando quiser!...
— Ah! já sei... tomou Raimundo com um vislumbre, rindo. Não quer dar sua filha a um homem de idéias tão revolucionárias?...
— Não! não é isso! E fiquemos aqui! Sei que o senhor tem direito a uma explicação, mas acredite que, apesar da minha boa vontade, não a possa dar...
— Ora esta! Mas então por que é?...
— Não posso dizer nada, repito! E peço-lhe de novo que não insista... Esta posição é para mim um sacrifício penoso, creia!
— De sorte que o senhor me recusa a mão de sua filha? Definitivamente?! — Sinto muito, porém... definitivamente...
Calaram-se ambos, e não trocaram mais palavra até à fazenda do Cancela.
CAPÍTULO XI
Quando chegaram ao portão da fazenda, já a lua resplandecia, desenhando ao longo da eira a sombra espichada de enormes macajubeiras sussurrantes. Fazia um tempo magnífico, seco, fresco, transparente; podia ler-se ao luar. O guia sacudiu com vigor a campainha e gritou:
— O de casa!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.