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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

A cada momento cruzávamos esses fariseus, ressoantes e vazios como tambores, que vêm ao templo assoalhar a sua piedade - uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastidão do pecado humano; outros, tropeçando e apalpando o ar, de olhos fechados, para não ver as formas impuras das mulheres; alguns mascarados de cinza, gemendo, com as mãos apertadas sobre o estômago - em testemunho dos seus duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabi, interpretador de sonhos; num carão lívido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza de lâmpadas de sepulcro; e, sentado sobre sacos de lã, estendia por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nus, a ponta de um vasto manto negro com signos brancos pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar - quando de repente gritos aflitos ressoaram no átrio. Corremos. Eram levitas, com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que, em estado de impureza, penetrara no pátio de Israel. O sangue salpicava as lajes. Em torno crianças riam.

Ia caindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre Jerusalém a contemplá-la com paixão; e, para nos acercarmos do "átrio de Israel", fomos penosamente fendendo a multidão que ali remoinhava, vinda de toda a terra culta e bárbara... O rude saião de peles, dos pegureiros das iduméias, roçava a clâmide curta dos gregos de face rapada e mais brancos que mármores. Havia homens solenes da planície de Babilônia, com as barbas metidas dentro de sacos azuis, que uma corrente de prata lhes prendia às mitras de couro pintado; e havia gauleses ruivos, de bigodes pendentes como as ervas das suas lagoas, que riam e parolavam, devorando com a casca os limões doces da Síria. Por vezes um romano togado passava, tão grave como se descesse de um pedestal. Gente da Dácia e da Mísia, com as pernas enfaixadas em ligaduras de feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos mármores. E não era menos estranho ir eu, Teodorico Raposo, arrastando ali as minhas botas de montar, atrás de um sacerdote de Moloque, enorme e sensual na sua samarra de púrpura, que, em meio de um bando de mercadores de Serepta, desdenhava daquele templo sem imagens, sem bosques, e mais ruidoso que uma feira fenícia...

Assim lentamente nos fomos chegando à porta chamada "a Bela", que dava acesso para o átrio sagrado de Israel. Bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os quatorze degraus de mármore verde de Numídia, mosqueado de amarelo; os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os de um relicário e os dous umbrais, semelhantes a grossos molhos de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Judá, brilhantes no sol como um colar de glória sobre o pescoço forte de um herói! Mas diante deste ádito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado por uma placa negra com letras de ouro, onde se desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico, em caldaico: que nenhum estrangeiro aqui penetre, sob pena de morrer!

Fortunadamente avistamos o magro Gamaliel que se encaminhava ao santo pátio, descalço, apertando ao peito um molho de espigas votivas; com ele vinha um homem nédio e risonho, de face cor de papoula, coroado por uma enorme mitra de lã negra enfeitada de fios de coral... curvados até às lajes, saudamos o austero doutor da lei. Ele salmodiou logo, de pálpebras cerradas:

- Sede bem-vindos... Esta é a hora melhor para receber a benção do Senhor. O Senhor disse: "saí das vossas habitações, vinde a mim com as primícias dos vossos frutos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas mãos..." Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel. Subi à morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliézer de Silo, benéfico e sábio entre todos nas cousas da natureza.

Deu-nos duas espigas de milho; e atrás dele pisamos, com as nossas solas gentílicas, o adro interdito de Judá.

Caminhando a meu lado, Eliézer de Silo, cortês e suave, perguntou-me se era remota a minha pátria e perigosos os seus caminhos...

Eu rosnei, vaga e recatadamente:

- Sim... Chegamos de Jericó.

- Boa, por lá, a colheita do bálsamo?

- Rica! - afiancei, com calor. - Louvado seja o Eterno, que neste seu ano de graça estamos lá abarrotadinhos de bálsamos!

Ele pareceu regozijado. E revelou-me então que era um dos médicos que residem no templo - onde os sacerdotes e os sacrificadores sofrem perenemente "dissabores intestinais", por pisarem suados e descalços as lajes frias dos adros.

- Por isso - murmurou ele com uma faísca alegre no olho benigno - o povo em Sião nos chama doutores da tripa!

Torci-me de riso, de gozo, com aquela jocosidade assim sussurrada na austera morada do Eterno... Depois, recordando os meus dissabores intestinais em Jericó, por muito amar os divinos e pérfidos melões da Síria - perguntei ao amável físico se nessas ocorrências ele preconizava o bismuto...

(continua...)

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