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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois offereceram-te elles um bocado do bolo agora que o teem na

mão? Não. Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaría... Nem um chavelho! Emfim, ainda há para o bocado do pão,

e para a meia onça do tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabellos brancos... Pois não te quero massar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!

- Tu não queres subir um bocado, Alencar?

Tanta franqueza enterneceu o poeta.

- Obrigado, rapaz, disse elle, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, porque sei que vem do coração... Todos vocês teem coração... Já teu pae o tinha, e largo, e grande como o d'um leão! E agora crê uma cousa: é que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?

Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.

- Então ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.

E aquelle charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete, fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste. Interessou-se então pelo charuto. Accendeu

elle mesmo um phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel? Carlos achava um excellente charuto!

- Pois ainda bem que te dei um bom charuto!

Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.

Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do Alencar estirado n'uma chaiselongue, em quanto Baptista lhe fazia uma chavena de chá, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o velho lyrico...

E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fóra, estivera para lhe dizer: - pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano!

E isto fêl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel historia lhe fôra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troça, quasi grotescamente. Por que o avô, obdecendo á carta testamentaria de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separação cortez, depois a retirada da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pae fôra-lhe apresentada sempre como o brusco remate d'uma longa nevrose...

Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lançara-se n'um paradoxo tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da decadencia das raças: e dava por prova os

bastardos, sempre intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua mãe, sua propria mãe, em logar de ser a santa burgueza que resava o terço á lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um exilado abandonara fortuna, respeitos,

honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não poude interrogar o Ega, que já taramellava, agoniado, e que não tardou a vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar á casa das Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando - «que queria ser bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»

E elle mal podera dormir essa noite, com a idéa d'aquella mãe, tão outra do que lhe haviam contado, fugindo nos braços d'um desterrado - um polaco talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua grande amisade, a verdade toda...

Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado na cabeça com pannos de agua sedativa: e não achava uma palavra, coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranquillisou-o. Não vinha alli offendido, vinha alli curioso!

Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo, queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!

Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua historia - a que ouvira ao tio Ega - a paixão de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio d'annos que se fizera sobre ella...

Justamente as ferias chegavam. Apenas em Sta. Olavia, Carlos contou ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelação vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem poude fallar - e a voz por fim veiu-lhe tão debil e dolente como se

(continua...)

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