Por Eça de Queirós (1878)
Enfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinelas, enxovalhado e esguedelhado rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarros; ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia livros abertos; - e um cheiro relentado saía do desmazelo das coisas. A janela de peitoril dava para o saguão, de onde vinha o cantar estridente de uma criada, e o ruído areado do esfregar de tachos.
Julião, apenas ele entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde às sete!... Hem? Era bonito! Para que soubesse o Sr. Sebastião!
- De resto chegaste a propósito. Estava para mandar à tua casa... Devia receber aí um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra.
E imediatamente começou a falar da tese. A coisa saía!
Leu-lhe parágrafos do prólogo com uma deleitação paternal, e, muito satisfeito, na abundância de confiança que dá a excitação do trabalho, com grandes passadas pelo quarto:
- Hei de lhes mostrar que ainda há portugueses em Portugal, Sebastião! Hei de os deixar deboca aberta! Tu verás!
Sentou-se; pôs-se a numerar as folhas escritas, assobiando. Sebastião, então, com timidez, quase vexado de perturbar com as suas preocupações domésticas aqueles interesses científicos, disse baixo:
- Pois eu vim-te falar por causa lá da nossa gente...
Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco doido, entrou; era um estudante da Escola, amigo de Julião, e quase imediatamente os dois recomeçaram uma discussão que tinham travado de manhã, e que fora interrompida às onze horas, quando o rapaz de olhar doido a almoçar à Áurea.
- Não, menino! - exclamava o estudante, exaltado. - Estou na minha! A Medicina é uma meiaciência; a Fisiologia é outra meia ciência! São ciências conjeturais, porque nos escapa a base, conhecer o princípio da vida!
E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:
- Que sabemos nós do princípio da vida?
Sebastião, humilhado, baixou os olhos.
Mas Julião indignava-se:
- Estás desmoralizado pela doutrina vitalista, miserável! - Trovejou contra o Vitalismo, quedeclarou "contrário ao espírito científico". Uma teoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos não são as mesmas que governam os corpos vivos - é uma heresia grotesca exclamava. - E Bichat que a proclama é uma besta!
O estudante, fora de si, bradou - que chamar a Bichat uma besta era simplesmente de um alarve.
Mas Julião desprezou a injúria, e continuou, exaltado nas suas idéias:
- Que nos importa a nós o princípio da vida? Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro qualquer princípio:
um segredo! Havemos de ignorá-lo eternamente! Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os fins, mistérios! São causas primárias com que não temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar séculos, que não avançamos uma polegada. O físiologista, o químico, não têm nada com os princípios das coisas; o que lhes importa são os fenômenos! Ora, os fenômenos e as suas causas imediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos - numa pedra, como num desembargador! E a Fisiologia e a Medicina são ciências tão exatas como a Química! Isto já vem de Descartes!
Travaram então um berreiro sobre Descartes. E imediatamente, sem que Sebastião atônito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéia de Deus.
O estudante parecia necessitar Deus para explicar o Universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe uma hipótese safada", "uma velha caturrice do partido miguelista"! E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dois galos inimigos.
O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o princípio da autoridade! Julião berrava pela "anarquia individual!" E depois de citarem com fúria Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridência da voz, censurou violentamente ao estudante - as suas inscrições a seis por cento, o ridículo de ser filho de um corretor de fundos, e o bife de proprietário que vinha de comer na Áurea!
Olharam-se, então, com rancor.
Mas daí a momentos o estudante deixou cair com desdém algumas palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.
Sebastião tomou o chapéu.
- Adeus - disse baixo.
- Adeus, Sebastião, adeus - disse prontamente Julião.
Acompanhou-o ao patamar.
- E quando quiseres que eu fale a meu primo... - murmurou Sebastião.
- Pois sim, veremos, eu pensarei - disse Julião com indiferença, como se o orgulho do trabalholhe tivesse dissipado o terror da injustiça.
Sebastião foi descendo as escadas, pensando: "Não se lhe pode falar em nada, agora!"
De repente veio-lhe uma idéia: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se com ela! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher de idade, íntima de Luísa; tinha mais autoridade, mais habilidade mesmo...
Decidiu-se logo; tomou um trem, foi à Rua de São Bento.
A criada de D. Felicidade apareceu-lhe, desolada e lacrimosa:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.