Por Eça de Queirós (1870)
No entanto, a cavalaria formara em linha. Os clarins tocavam, as bandeiras desdobravam-se; e de repente aquela enorme massa despediu à carga cerrada do fundo docampo para a tribuna do Jockey. Os capacetes, as couraças, as espadas, faiscavam ao sol. O chão tremia sob ocompasso do galope. Sentia-se já o tinir dos ferros. Distinguiam-se já os coronéis, esbeltos moços condecorados. Ouvia-se o respirar ofegante dos cavalos. O Imperador tinha-se descoberto, todos na tribuna estavam de pé.. De repente, por um movimento único, todaaquela enorme coluna estacou firme, vi brante, imóvel, reluzente, agitando as espadas, e gritando:Urra! Viva o Imperador!
A tribuna, de pé, respondeu: — Hurra!
Então, vendo uma tão admirável cavalaria, uma tão grande força, tanto prestigio imperial, e tomados do indomável orgulho das tradições ou possuídos da febre do sangue militar, muitos oficiais, que estavam nas outras alas, adiantaram-se, e elevando as espadas,gritaram: — A Berlim! a Berlim! Por todo o campo se ouviam agora gritos exaltados:- A Berlim! a Berlim!
E na tribuna algumas vozes clamavam também:- Sim, sim, a Berlim! O Imperador então, erguendo-se nos estribos, estendeu a mão abe4a como impondo silêncio, ou como dizendo: Esperai!Aquele grito inesperado todo o Estado-maior se tinha aperta do em torno do Imperador, e eu, que estava nos primeiros bancos da tribuna, vi o marechal Mac-Mahon detersubitamente o cava lo, voltar meio corpo rapidamente, e com a mão apoiada no xairel escarlate bordado a ouro, que cobria a anca do animal, erguer os olhos meio risonhos para o lado da tribuna em que estava o embaixador da Prússia. Eu segui o olhar do marechal, olheitambém e vi...como hei-de dizê-lo? Vi Rytmel. Vi-o junto de miss Shorn, cur vado, falandolhe, sorrindo-lhe, absorto, afogado na luz dos seus olhos. Ela olhava-o, extremamente séria,com um longo olhar de morado e convencido, em que eu vi todo o fim da minha vida!
II
Daí a dez dias o conde chegou; partimos para Portugal. Durante esse tempo que ainda estive com Rytmel em Paris, nem eu traí as minhas dúvidas, nem ele mostrou preocupaçõesalheias aos interesses do nosso amor.
Vim para Lisboa; recebia regularmente cartas dele. Estudava-as, decompunha as frasespalavra por palavra para encontrar a oculta verdade do sentimento que as criara. E terminava sempre — meu Deus! — por descobrir uma serenidade gradual no seu mo do de sentir. Rytmel escrevia-me com muito espírito e com muita lógica para poder pôr o coração no queescrevia. Evidentemente, o seu amor passava da paixão para o raciocínio. Criticava-o: prova de que não estava dominado por ele. Tinha até já palavras enge nhosas e literárias. Valia-seda retórica! Ao mesmo tempo a sua le tra tornava-se mais firme; já não eram aquelas linhas tortas, con vulsivas e arrebatadas que palpitavam, que me envolviam... Era um infame cursivo inglês, pausado e correcto. Já me não escrevia como dantes em papel de acaso, emfolhas de carteira, em pedaços de cartas velhas, que denotavam as inspirações do amor, os sobressaltos repentinos da paixão; escrevia-me em papel Maquet, perfumado! Pobre querido,o que o seu coração tinha de menos em amor tinha de mais o seu papel em marechala!E eu? É talvez ocasião de falar aqui do meu sentimento. Duvidei fazê-lo. Não queria colocar o meu coração sobre esta página como numa banca de anatomia. Mas pensei melhor.Eu já não sou alguém. Não existo, não tenho individualidade. Não sou uma mu lher viva, com nervos, com defeitos, com pudor. Sou um caso, um acontecimento, uma espécie de exemplo. Não vivo da minha respi ração, nem da circulação do meu sangue: vivoabstractamente, da publicidade, dos comentários de quem lê este jornal, das discus sões que as minhas mágoas provocam. Não sou uma mulher, sou um romance.
III
Não pense que digo isto com amargura. A maior alegria que eu posso ter é a aniquilação da minha individualidade. Por isso não tenho escrúpulos. As almas extremamente des graçadas são como as criancinhas: devem mostrar-se nuas.
Além de tudo suponho que estas páginas podem ser uma reve lação proveitosa paraaquelas que estejam nas ilusões da paixão. Que me escutem pois!
São 11 horas da noite. Neste momento, quantas sei eu que so frem, que esperam, que mentem, possuídas de um sentimento, que pouco mais lhes dá do que a felicidade de seremdesgraçadas! Tu, minha pobre J..., mulher de discretos martírios a quem tantas ve zes vi os olhos pisados das lágrimas! tu, pobre Th..., que tens pas sado a tua vida a tremer, a recear, ahumilhar-te, a espreitar, e a fugir..., vós todas que estais envolvidas pelo elemento cruel da paixão, quase fora da vida, e em luta com a verdade humana, vós todas escutai-me!
Desde que amei, a minha vida foi um desequilíbrio perpétuo. Não era voluntariamenteque eu cedia à atracção, era com uma re pugnância altiva. Mil coisas choravam dentro em mim, sofria so bretudo o orgulho. Era imposs ível fazer com ele uma conciliação. Reagiusempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.