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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, num imenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que delas, como de Deuses encontrados num caminho, lhe viesse afago ou proveito. E Jacinto, para quem ele mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquela miséria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago: “Está bem, está bem...” Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como ele, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificência, o Silvério teve de o espantar, como a um pássaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:

-Já para casa! E leve esse dinheiro à mãe. Roda, roda!...

-E nós vamos almoçar – lembrei eu olhando o relógio. – O dia ainda vai estar lindo.

Sobre o rio, com efeito, reluzia um pedaço de azul lavado e lustroso, e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rotas, para um canto escuso do céu.

Então recolhemos lentamente para casa, pôr uma vereda íngreme, que ensinara o Silvério, e onde um leve enxurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechovia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, reluzia consolada.

Bruscamente, ao sairmos da vereda para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacinto parou, tirando lentamente a cigarreira:

-Pois, Silvério, eu não quero mais estas horríveis misérias na Quinta.

O Procurador deu um jeito aos ombros, com um vago eh! eh! de obediência e dúvida.

-Antes de tudo – continuava Jacinto – mande já hoje chamar esse Dr. Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios que os vão buscar logo a Guiães. E recomendação ao médico para voltar amanhã, e em cada dia; até que ela melhore... Escute! E quero, Silvério, que lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez ou quinze milréis... Bastará?

O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil-réis! Uns tostões bastavam.... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, aquela gente. Depois todos queriam, todos pechinchavam...

-Mas é que todos hão de Ter – disse Jacinto simplesmente.

-V. Exª manda! – murmurou o Silvério.

Encolhera os ombros, parado no caminho, no espanto daquelas extravagâncias. Eu tive de o apressar, impaciente:

-Vamos conversando e andando! É meio-dia! Estou com uma fome de lobo!

Caminhamos, com o Silvério no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapéu, a barba imensa espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacinto, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idéias benfazejas, cautelosamente, no seu indomável medo do Silvério:

-E as casas também... Aquela casa é um covil!... Gostava de abrigar melhor aquela pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são pocilgas iguais... era necessário uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da Quinta...

-A todos?... – O Silvério gaguejava – emudeceu.

E Jacinto balbuciava aterrado:

-A todos... Enfim, quero dizer... Quantos serão eles?

Silvério atirou um gesto enorme:

-São vinte e coisas... vinte e três! Se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete...

Então Jacinto emudeceu também, como reconhecendo a vastidão do número. Mas desejou saber pôr quanto ficaria cada casa!... Ó! uma casa simples, mas limpa, confortável, como a que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. Silvério estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Exª saber? E alijou a cifra, muito de alto, como uma pedra imensa, para esmagar Jacinto:

-Duzentos mil-réis, Exmo Senhor! E é para mais que não para menos!

Eu ria da trágica ameaça do excelente homem. E Jacinto, muito docemente, para conciliar o Silvério:

-Bem, meu amigo... eram uns seis contos de réis! Digamos dez, porque eu queria dar a todos alguma mobília e alguma roupa.

Então o Silvério teve um brado de terror:

-Mas então, Exmo Senhor, é uma revolução!

E como nós, irresistivelmente, ríamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus imensos braços abertos para trás, como se visse o mundo desabar – o bom Silvério encavacou:

-Ah! V. Exas riem? Casas para todos, mobílias, pratas bragal, dez contos de réis! Então também eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bela chalaça!... Está boa a risota!

E subitamente, numa profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade naquele disparate magnífico: -Enfim, V. Exª é quem manda!

-Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para os melhorar. Há muito que melhorar. Venha você almoçar conosco. E conversamos,

Tão saturado de espanto estava o Silvério, que nem recebeu mais espanto com essa “melhoria de rendas”. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a S. Exª para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a consertar a trave do rio. Era um instante, e estava em seguida às ordens de S. Exª.

(continua...)

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