Por Raul Pompéia (1881)
Saiba agora quem sou... Eu sou o pai de Vildac!... do bárbaro Vildac... Mas terei direito de queixar-me? Ah! Não me cabe a mim acusá-lo...
- Como! exclamei com espanto. Como, pois?!... Vildac é seu filho e o monstro o conservapreso?... Sem falar a ninguém... carregado de ferros?!
- A cobiça! a cobiça! Ah! não sabe o que pode a cobiça... Nunca houve sentimentos no coraçãoselvagem do meu desgraçado filho! Insensível à amizade, foi surdo até à voz da natureza. Para tomar-me a fortuna, carregou-me de ferros...
Foi um dia visitar um dos nossos vizinhos que perdera o pai. Achou-o no meio dos vassalos, muito atarefado a receber o produto das rendas e das safras. Um pensamento diabólico apoderou-se-lhe da vontade. Fechou-me o rosto. Notei-lhe uma transformação sombria. Um mês mais tarde, alguns homens mascarados agarraram-me brutalmente, à noite, e seminu trancaram-me na torre.
No outro dia, os sinos dobraram, por minha morte. Aqui, do meu cárcere, ouvi os cânticos fúnebres, as preces, ai de mim que pediam ao céu o descanso de minha alma...
Ah! Como me penetraram de tristeza aquelas cerimônias!... Ao menos os outros mortos não ouvem... De então por diante, eu não existia mais... E há vinte anos represento a triste comédia... Só não sei para que algemas... Os mortos não fogem...
- Não! disse eu possuído de indignação, não há de ser assim!
O velho prisioneiro interrompeu-me:
- Não desejo fugir... Quisera apenas dizer a meu filho duas palavras... Os que trazem a comidaconsideram-me um criminoso condenado a acabar nesta torre... E assim deve ser.
- Não! Há de deixar o cárcere... Fui destinado pelo céu... hei de salvá-lo... Partamos... Todosdormem... Serei o seu amparo, a sua defesa...
- Ah! meu bom senhor, mudaram-se muito os meus princípios e as minhas idéias nestasoledade em que vivo. Tudo é opinião... Agora, que me conformei com o que a situação tem de mais cruel, para que trocar por outra? Que iria eu fazer pelo mundo?... Está lançada a sorte...
- Reflita! reflita bem! O dia vai romper... Não sobra o tempo... Venha! vamos!...
- Comove-me este zelo, mas tão poucos dias tenho para viver... a liberdade já não tenta... Demais gozá-la fora desonrar o nome de meu filho...
- Ele é que se desonrou!...
- Mas essa inocente, que dorme agora nos braços do esposo... Eu iria cobri-la de infâmia... Ah! quanto preferia eu apertá-la ao peito, cobri-la de lágrimas. Por desgraça minha não hei de vê-la nunca!... Adeus, generoso amigo... Vai amanhecer... Podiam ver-nos... Eu volto à prisão.
- Impossível! protestei, detendo-o. Não posso consentir. A reclusão enfraqueceu-vos o cérebro...
Eu darei ânimo... Mais tarde veremos se convém dar-se a conhecer... Saiamos primeiro... Ninguém saberá; ocultarei ao mundo o crime de Vildac... Medo de quê?!
- Nada! Eu agradeço penetrado de reconhecimento... Eu o admiro; mas tudo é inútil. Não possoacompanhá-lo.
- Pois bem!... Escolha... Prefere que eu recorra ao governador da província. Revelarei tudo...Viremos arrancá-lo pelas armas à desumanidade de seu filho!
- Oh! não abuse jamais da minha revelação! Deixe-me morrer aqui...
E repentinamente, disforme, agitado, com uma voz medonha, concluiu:
- Saiba... Sou um monstro indigno da luz do dia! Há um crime, um crime que devo expiar... um crime infame... horroroso... Veja o chão... Está vendo essas pedras... têm manchas de sangue... as paredes também... Sangue por toda parte!...
Este sangue... é o sangue de meu pai... Eu o assassinei... Queria também como Vildac!!!... Ah! estou a vê-lo... ali! ali! Estende-me as mãos, os braços em sangue... Quer deter-me a fúria... Cai na pedra! Oh! visão horrível! Oh! desespero!...
O velho preso arremessou-se às lájeas, tirando punhados de cabelos brancos, contorcendo-se em convulsões de cólica, sacudindo o rumor tilintante dos elos. Não ousava mais encarar-me...
O terror aniquilou-me.
- Está agora horrorizado, disse o pai de Vildac, de pé, olhando-me atravessado. Adeus!...
E, com uma calma fantástica:
- Fuja de mim! Eu torno a subir para a torre...
Quando mais sereno busquei combinar as idéias e verificar se me iludira uma alucinação, o velho tinha desaparecido.
Ouvi ainda, mas quase imperceptível, na abóbada, o último rumor das correntes.
Clareavam-se as vidraças com a polidez azul das madrugadas de inverno.
Eu fugi do castelo, levando para toda a vida o espanto desta aventura sem nome.
Raul Pompéia
O TAPACURÁ DE CENDI
(Fantasia Trágica)
I
A horda inteira embrenhou-se no espesso dos matagais... Se dava a aragem, a ramaria, abrindo-se, entremostrava, na meia escuridade do coração da mata os corpos nus dos guerreiros, sarapintados de rubras listas de urucu; mais adiante, se uma clareira rasgava o pano de verdura florestal, surgiam cabeceando os selvagens...
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.