Por Adolfo Caminha (1893)
A sala de jantar era uma espécie de alpendre assentado sobre grossos pilares de tijolo, abrindo toda para o quintal, onde, àquela hora, via-se roupa lavada a enxugar, de uma brancura de hóstia, ao redor da cacimba. Fazia ângulo à esquerda com a cozinha, e, à direita, um velho muro escalavrado separava o quintal de outros quintais, com uma medonha dentadura de cacos de garrafas.
Desde as três horas começava a fazer sombra no alpendre e às quatro já se podia respirar ali a frescura das ateiras.
Sobre a mesa nada mais que uma toalha com manchas de gordura, pratos e copos em desordem, uma moringa muito estragada, bananas e laranjas.
D. Terezinha fazia bocados de pirão com os dedos em pinha e atirava ao Sultão.
— Boa alma aquela tia Joaquina, continuou o amanuense acendendo o cigarro. O mestre Cosme, esse é um homem pobre, coitado, mas honesto como poucos. Vive de vender lenha na feira... Bom velho!
— Leva estes pratos, Mariana, disse D. Terezinha erguendo-se.
Tinha jantado num momento.
A tia Joaquina, conhecida no mercado pela velha dos cajus, e mais o mestre Cosme, eram um pobre casal que morava na Aldeota, cerca de um quilômetro da cidade, numa casinhola de taipa, dentro de um largo cercado de pau-a-pique plantado de cajueiros, todo verde no inverno, com um grande poço no centro, cavado toscamente, e ao fundo do qual sangrava um veio de água cristalina.
Era aí que viviam, há anos, desde a seca de 77 —, entre brenhas de camapus e matapasto, à sombra dos cajueiros, felizes, sem filhos. Corria-lhes a vida como um abundante manancial de águas límpidas em leito de areia.
Pela manhã, muito cedo, mestre Cosme saltava da rede armada no alpendre, enfiava a grossa camisa de algodão e lá ia com uma xícara de café no estômago, atrás da jumenta, da sua inseparável jumenta, que lhe dava o pão de cada dia e que carinhosamente chamava-a Coruja. O dócil animal costumava pastar à beira da cerca, tão feliz quanto o dono cuja presença punha-lhe uma expressão reconhecida no olhar manso. Mestre Cosme metia-lhe o focinho no freio, armava-lhe a cangalha, e abalava para o morro do Cocó a explorar a mata, a fazer lenha para vender no mercado a dez tostões a carga. Um dinheirão!
Mestre Cosme não queria vida melhor. Ao pôr-do-sol voltava com os seus ricos dobrões na ponta do lenço, escanchado na Coruja, sem cuidados, debaixo de seu grande chapéu de palha de carnaúba.
Tia Joaquina ficava trocando os bilros na almofada. Mas, em chegando o fim do ano, ia também à cidade fazer o seu negócio, com uma grande cuia na cabeça: — “Olha o cajuzinho bom do Cocó! Olha o cajuzinho bom!” E voltava com a cuia vazia e com a isquinha de fígado para a ceia ou com o cangulinho fresco de altomar.
Chamavam-na a velhinha dos cajus, porque os cajus que tia Joaquina vendia tinham um sabor especial, eram doces como açúcar.
Queriam-se os dois como um casal novo em lua-de-mel. “Meu velho” e “minha velha” — é como se tratavam.
João da Mata conhecia-o de longa data, desde a seca, por sinal naquele tempo tinham uma filha moça — também Maria (Maria das Dores) que morrera das febres em 77. João era comissário de socorros e fazia-lhes muitos benefícios. Mestre Cosme morava, então, no Pajeú, numa palhoça miserável.
— Tempo de calamidades! murmurava o velho ao lembrar-se da seca.
O amanuense viu o mestre Cosme no mercado e teve a idéia de lhe falar na ida de Maria do Carmo para a Aldeota. — “Tinha um grande favor a pedir ao mestre Cosme” começou, pousando a mão no ombro do velho.
— Pois diga lá... Seu Joãozinho sabe que a gente vive no mundo para servir uns aos outros...
— É isto, mestre Cosme. A Maria, minha afilhada, tem andado doente, coitada, está fraquinha, precisa tomar um pouco de leite fora da cidade... Eu queria que ela fosse passar uns tempos no Cocó, a rapariga tem um fastio que até mete pena...
O bom velho ficou admirado: “— Só isso?... Ora, seu Joãozinho, isso não é favor! Eu até estimo. A menina pode ir quando quiser. É casa de pobre, vossemecê bem sabe, mas a gente sempre veve...”
— Pois está bem, mestre Cosme, a pequena vai domingo cedo. Diga à tia Joaquina. Deixe estar que não lhe esquecerei. Lembra-se da seca?...
— Se me alembro? Ora, ora, ora, como se fosse hoje. Comi muita farinha do seu Joãozinho, pois não hei de me alembrar? Aquilo é que foi morrer gente!...
— Bem. Você ainda mora na mesma casa, não é assim?
— Sim senhor, pra lá do Osil; na Aldeota, à direita de quem sobe...
— Muito bem, adeus. Domingo, sem falta. Tome, é para você comprar de fumo.
E João deu um níquel ao velho.
Estava tudo arranjado.
O amanuense começou a ver claro na espessa caligem de seu espírito. Decididamente era um homem de recurso!
No domingo, com efeito, depois da missa da madrugada na Sé, Maria do Carmo e o padrinho seguiram para a Aldeota, a pé.
Ainda tremeluziam estrelas no alto. Para as bandas do Coração de Jesus, por entre coqueiros que se avistavam da praça do Colégio, nuvens esfarripavam-se numa soberba apoteose de púrpura e violeta.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.