Por Inglês de Sousa (1891)
Macário, à proa, remando com afinco, suando em bica, começava a achar que os mundurucus estavam muito longe, e o remo lhe cairia das mãos antes de lhes pôr a vista em cima. Teimava naquela tarefa ingrata de repelir a água com a face do seu remo redondo, inabilmente manejado, porque, graças a Nossa Senhora, nunca fora remador de montarias. Sentia arderem-lhe as mãos, uma dor aguda comia-lhe as costas, descendo-lhe até os rins, e copioso suor inundava-lhe a fronte, dando uma sensação de crescimento ao lombinho, que o sol castigava com uma preferência incômoda. Desde alta madrugada estava Macário acordado, tinha perdido a noite, pela primeira vez na vida, na luta terrível que a prudência travara contra o prestigio e a força moral do vigário, e na qual fora vencida, por entre grandes suspiros e profundos desalentos. Carregara aos ombros os remos e os cachos de bananas, vendidos pela tia Teresa por muito bom dinheiro acompanhado das bênção de padre Antônio, e desde que as estrelas empalideceram à primeira claridade da aurora, sentara-se naquele banco e puxava pelo remo como se nunca tivesse feito outra coisa em dias de sua vida. O calor aumentava. Macário já não sentia as pernas adormecidas pela demorada imobilidade em que jaziam; os braços já se recusavam ao serviço. O lombinho, no meio da testa, crescia, interceptando-lhe a luz dos olhos.
Saberá V. Rev.ma que são horas de almoço, disse, enfim, voltando-se para o padre, descansando o remo, enxugando o suor na manga da camisa.
Seriam, com efeito, oito horas da manhã. Ardia o sol num céu sem nuvens. A água do rio tomava tons azulados, e o verdejante arvoredo das margens revestia-se dum colorido luxuriante, em plena seiva, banhado em luz intensa e poderosamente fecundado pelo calor que abrasava a terra. Ao longe a linha da cordilheira, suavemente ondulante, recortava o azul-celeste do firmamento em metátomos irregulares dum azul mais carregado, alargando o horizonte, numa perspectiva de afastamento indefinido. No meio da massa verde-escura da floresta, de um e de outro lado, as altas embaúbas abriam as folhas brancas, leques inúteis que a viração não abanava, e as bacabeiras carregadas de cachos, deixavam-se estar imóveis com as palmas estiradas, abertas, levemente amarelecidas, sem ânimo de as balançar no espaço, para não perder nenhum dos beijos vivificantes do sol.
Os sabiás, os corrupiões, os diversos trovadores das selvas amazônicas recolhiam-se à frescura do arvoredo para a modulação dos trenos amorosos no mistério das folhagens. Os macacos, preguiçosos e sonolentos, internavam-se no mato em busca de algum regato cristalino ou, saciados de castanhas, balançavamse pachorrentamente em delgados cipós. As próprias ciganas arrastavam o grasnar desagradável, como vencidas do cansaço e do silêncio, que lhes não permitia a índole barulhenta e irrequieta. Os peixes tardavam em vir à tona da água, ou boiavam sem ruído, para não interromper a calada do dia. Era intenso o calor.
Padre Antônio acedera suspirando ao pedido contido no aviso do Macário, e dirigira a canoa para a beira, escolhendo lugar para o desembarque. Macário petiscara lume, fizera uma fogueirinha com ramos secos, e assara um naco de pirarucu, e umas bananas verdes.
Depois do almoço, como o calor aumentava, o sacristão obtivera o descanso de algumas horas à sombra. Escolhera um castanheiro, a cujo abrigo se estendera no chão, moído e escangalhado. E adormecera logo.
Padre Antônio aproveitara o tempo num longo passeio por entre as árvores da mata, enchendo os ouvidos dos sons sensuais do canto dos rouxinóis, e sentindo uma agradável impressão de isolamento e de bem-estar debaixo daquele teto de verdura. Quando viera a viração do mar, por volta de uma hora da tarde, toda a natureza, como reanimada pela varinha de condão de uma fada, acordara do letargo e repetira o concerto das vozes matutinas, com menos frescura e intensidade talvez, mas com a mesma agitação. Os peixes amiudaram-se à superfície do rio, como em brincos apostados, a quem mais vezes mergulhava e surgia no mesmo trecho do rio. As aves atreveram-se a deixar a sombra da floresta e a atravessar novamente o Canumã, voltando da viagem de amor ou de negócios feita pela manhã, e recolhendo-se aos ninhos, pressurosas e alegres. As palmeiras balançaram no espaço os leques verdes, auxiliando a viração na tarefa de refrescar a atmosfera; e grandes folhas de embaúba e palmas de coqueiros silvestres caíram com um ruído seco espantando as capivaras. Ao longe, o azul da cordilheira desmaiava, expirando numa orla esbranquiçada mal distinta da base dos altos cirros recém-formados, e cujos filamentos entrecortados semelhavam colunas de mármore veiado de azul sustentando rico dossel brilhantemente colorido. O sol, dardejando os raios quase a prumo sobre a coroa das palmeiras, parecia um sultão, recolhendo ao seu dormitório recôndito de tirano, satisfeito com as sultanas mais esbeltas e formosas e desdenhoso da turba das escravas. O ruído das franças agitadas pelo vento e o canto dos passarinhos distraíam a padre Antônio da meditação religiosa em que procurava afundar-se, suscitando-lhe imagens de gozo profano. Reagira, porém, contra aquela espécie de torpor moral que o invadia, e fora acordar o Macário para porem-se de novo em viagem.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.