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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!... Quando assassinaram o pobre homem, o senhor vigário nem quis espargir-lhe a água benta; mandou o sacristão! Não podia encarar com o corpo do José! E, veja V Sª , meteu-se em casa, e pouco nada apareceu, até que se retirou para sempre cá da vila! Todos nós sentimos deveras semelhante retirada; estávamos tão acostumados com ele!... Eu, nesse tempo, trabalhava nas terras do coronel Rosa; tinha os meus vinte anos e ainda estava solteiro; assisti a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como se fosse ontem! A fazenda, essa foi logo abandonada; ninguém quis saber mais dela, pois, todas as noites, quem passasse por ai, ouvia gritos medonhos, de arrepiar o couro!

— Mas, além do José e da mulher, quem mais morou nesse lugar?

— Or'essa! a escravatura e o feitor.

— Não. Digo senhores.

— Ninguém mais.

— Ah, é verdade! O José era feliz com a mulher? Viviam bem?...

— Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas tenras são tenras do diabo! Viviam que nem o cão com o gato! O cônego, ainda assim, era quem os acomodava, dando-lhes conselhos e pedindo a Deus por eles!

E Raimundo perdia-se novamente em conjeturas. as. “Sempre sombras!...

Sempre as mesmas dúvidas sobre o seu passado!...”

A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos de palestra, vaga e bocejado, adormeceu Raimundo sonhou toda a noite.

As quatro da madrugada estavam de pé, selados os cavalos, cheio o farnel para a viagem, e o guia montado.

Partiram às cinco horas.

Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo procurou entabular a mesma conversação que tivera na véspera com o roceiro; queria ver se conseguia arrancar de Manuel algum esclarecimento positivo sobre os seus antepassados. Nada obteve; as respostas do negociante eram, como sempre que o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras, difusas, entrecortadas de pausas e reticências. Manuel falou-lhe no cônego, na cunhada, no mano José, e em mais ninguém. A respeito da mãe de Raimundo - nem a mais ligeira referência. “Ora adeus!... Estou sempre na mesma!...” concluiu o moço de si para si e fez por pensar noutra coisa. O fato, porém, é que ele, apesar do seu temperamento de artista não tinha uma frase para as belas paisagens que se desenrolavam diante de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.

Jornadearam em silêncio horas e horas. De vez em quando o guia, com o seu de sertanejo, levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os três descansavam e comiam, para tomar logo a cavalgar por entre as melancólicas carnaubeiras e pindovais da estrada. Raimundo sentia-se aborrecido e impacientava-se pelo fim da viagem. Seu maior empenho era visitar São Brás; propôs até que se fosse lá primeiro, mas o negociante declarou que era impossível. “Não tinham tempo a

perder!...”

— Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos um pulo até lá. Lembre-se de que nos esperam, e não seria razoável bater fora de hora em casa de uma família.

O outro consentiu, praguejando entre dentes contrariado e cheio de tédio: “Que grandíssima estopada! O diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir diante deles!...”

— Não se rale, patrãozinho! E ali quase! disse compassadamente o guia, espichando o beiço inferior Meta a espora no animal, que talvez chegaremos com dia!

— Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o sol ainda alto e compreender que tinha de caminhar até à noite.

E deixou-se cair numa prostração mofina, a fitar as orelhas do burro, que arfavam com a regularidade monótona das asas de um pássaro voando.

— Cá está! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais sombrio do caminho.

— Que é? ia perguntar o moço quando deu por sua vez com uma cruz de madeira, muito tosca e arruinada. Ah!

— Foi neste lugar assassinado o José!...

Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.

— Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por uma bala.

— E o assassino? perguntou Raimundo depois de um silêncio.

— Algum preto fugido!... até hoje nada se sabe ao certo... mas dizem que nisto andou unha política. . outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens! ...

Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.

Manuel, já de pé, respondeu que não. Enterrara-se no cemitério da fazenda, ao lado da mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso do sertão; servia para mostrar ao viajante o lugar onde fora alguém assassinado e fazê-lo rezar pela alma da vítima, como ali estava praticando aquele homem.

E apontou para o guia, que, terminada a sua oração, levantou-se e foi colher um ramo de murta, que depôs aos pés da cruz.

Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabeça baixa e chapéu pendurado das mãos postas, rezava convictamente. Ao terminar surpreendeu-se por saber que Raimundo não tencionava fazer o mesmo.

— O quê? Pois então o senhor não reza?...

— Não. Vamos?

— Ora! essa cá me fica!... Então qual é a sua religião? Como adora o senhor a Deus?

(continua...)

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