Por Franklin Távora (1878)
Não era ela nem fei nem bonita, nem alta nam baixa, nem muito morena nem muito clara. Era um todo correto, proporcionado e como feito de propósito para existir justamente na burguesia. Tinha os cabelos corridos e acastanhados, os olhos pretos e algum tanto caídos, o sorriso engraçado, mas sem o colorido, sem o reflexo indefinível que acusa louras esperanças, sonhos purpurinos, anelos vagos mas não de todos cegos, férvido sentimento em quem o sorri.
Sua instrução era vulgar, e a falta dos conhecimentos morais, necessários à mulher por honra sua e segurança do lar que possa ser chamada pelo destino a formar mais tarde, ela a supria com o admirável bom senso e imensa brandura de coração, que a tornavam a primeira prenda da família.
A preocupação principal de Jeronimo Paes, depois de ver seus três filhos casados, vivendo cada um do seu negocio, era achar um homem limpo que quisesse casar com Zefinha.
Um Domingo, em que à porta do sitio que tinha nas proximidades do Poço-do-rei, Jeronimo esperava pela filha para ir à missa na Soledade, passou pela frente da casa Antonio Coelho. Como já se conheciam e eram até afreguesados, o marchante tirou conversa com o negociante e o teve preso ao pé de se até que Zefinha apareceu. Seguiram então os três para a vila, e juntos ouviram a sua missa, que teve para o jovem português e a cachopa goianista, particular, posto que vaga delicia.
Zefinha voltou apaixonada. Sentiu durante todo o dia e ainda no seguinte certo bem estar, certa inquietação, certa harmonia, que lhe tiraram a vontade de comer e o sono.
Com o jovem português não se deu o mesmo. De noite já não lhe lembravam outras feições, outros feitiços, que os de d. Damiana, cuja imagem ele trazia permanentemente em seu olhos.
Desse dia por diante começou Jeronimo a aproximar-se mais vezes de Coelho. Primeiro vieram os presentes, depois as visitas, e por fim os convites para almoços ou jantares em sua casa. Dentro em pouco estavam amigos.
Mas ao passo que o marchante não poupava finezas nem esforços para prender definitivamente o negociante, lançava-lhe este outras contas muito diferentes. Gostava de Jeronimo, não desgostava de Zefinha, mas seu ser moral revoava em torno da imagem da jovem senhora de engenho, como em torno de rosa gentil e delicada, revoa, absorvendo-lhe o saudável cheiro, namorado beija-flor. Quando Jeronimo dizia consigo estas palavras: ‘Como não havia de ser feliz Zefinha se casasse com Antonio Coelho!’ monologava este de se para se do seguinte modo: ‘Damiana, Damiana, meu amor, meu bem, minha vida, minha alma, que será de mim dentro em pouco tempo, se sorte propicia não vier arrasar a muralha que nos separa? Ah! eu não posso viver sem ti, delicia cruel de minha existência, doce fatalidade que fizeste de mim escravo e desgraçado!’
Não foi preciso muito para que Zefinha compreendesse que os sonhos de Coelho, seus pensamentos, suas ambições afetivas tinham por objeto outra mulher. Mas, por infelicidade, já sentia ela por ele todos os estremecimentos que revelam a existência da paixão. Herpe, corrosivo, o amor infeliz alastrava suas vesículas peçonhentas pelo coração virgem da rapariga, envolvendo-o em camada de fogo que o abrasava. Ela sentia o rapaz nos olhos, na fantasia, na luz, na sombra, entre a costura e a agulha, entre o sorriso e as lagrimas, entre a esperança vã e o desengano previsto ou adivinhado. ‘Ele não quer saber de mim’ dizia Zefinha em seu entendimento. E chorava tristemente. Mas se Coelho aparecia, já ela sorria de novo, não porque volvesse a acreditar, como nos primeiros tempos que o português retribuía o seu afeto, mas porque sua doce imagem lhe trazia o prazer que fugia quando ele se ausentava. A poder do esforço, Zefinha mostrou-se aparentemente senhora de sua paixão. Sem indiferenças despeitosas, sem contentamentos exagerados, ela conseguiu levar ao espirito de seu pai e ao do próprio Coelho a convicção de que, se não era feliz, também não era desgraçada; que sobre o lago azul dos seus afetos pairava a calma da inocência; que por ai não sopravam os vulcões que revolvem o céu de anil da mocidade, e são antes lavas abrasadas do que sopros de tormenta.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.