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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Houve então um baile no Hotel de Ville, um desses bailes ofi ciais em que umamultidão de praça pública se acotovela sob os lustres, brutalmente. Tinha eu acabado de dançar uma valsa com um coronel austríaco, quando a viscondessa de L..., que vivia então em Paris, veio a mim, toda risonha.- Conheces este nome: miss Shorn? — Não. Uma americana?- Uma irlandesa. Uma maravilha, O perfeito dançou com ela: a condessa Walevska beijou-a na testa. Gustavo Doré prometeu-lhe um desenho. Vai ser apresentada nas Tulherias. No fim, que res que te diga? Acho-a insignificante. Bonitos cabelos, sim. Não sefala noutra coisa! Mas tu deves conhecê-la...

— Porquê?- Tem dançado com Captain Rytmel, parecem íntimos. Tu ris? — Eu? — Não... tu riste!- Nunca rio, senão quando quero chorar, minha querida!

— Tiens, tiens! — murmurou ela olhando muito para mim.E afastou-se. O meu pobre coração ficou em desordem. Às vezes, na nossa alma, tocase de repente a rebate, e as desconfian ças adormecidas, acordam, tomam as suas armas, e fazem sobre nós um fogo cruel.Captain Rytmel aproximara-se.

— Vem radiante — disse-lhe eu. — Quem é miss Shorn?Ele respondeu, gravemente: — É a amiga íntima da minha irmã. Fomos dançar. Era uma quadrilha. Pareceu-me triste. Os mo vimentos da dançalembravam-me as cerimónias de um culto. O meu ramo ficou espalhado pelo chão. Nesse instante, sem saber porquê, detestei Paris, o ruído, o império; desejei as sombras de Sintra,os retiros melancólicos de Belas, cheios dos murmúrios da água.

Quis sair. Numa das últimas salas uma mulher alta, loura, to mava das mãos de um velho extremamente magro e distinto a sua sortie de boi. Captain Rytmel, que me dava o braço, inclinou-se ao passar junto dela, e falando baixo para mim:

— Miss Shorn! — disse ele.Era realmente linda. Grandes cabelos louros, fortes, lumino sos; os olhos largos, inteligentes, sérios; um corpo perfeito.

Nessa noite chorei. No meu quarto as luzes e o fogão estavam acesos. Entrei, fui aoespelho precipitadamente. Deixei cair dos ombros o burnous. Ergui a cabeça, olhei a medo. A minha imagem aparecia ao fundo do quadro num vapor luminoso. Achei-me feia. Olheimais. Tinha os braços nus, a cabeça erguida em plena luz. Lentamente a consciência de que eu estava linda assim, penetrou-me, encheu-me de alegria. É tão bom ser linda!

Dali a dois dias houve uma revista militar no campo de Longchamps. Captain Rytmelacompanhou-me. Eu tinha um lugar na tribuna do Jockey. Havia uma enorme multidão. Estava a impera triz, a corte, a diplomacia — a tribuna resplandecia de fardas, de jóias, deplumas, de reflexos de seda. Os regimentos tinham come çado a desfilar. As músicas, os clarins, o rufar altivo dos tambores, o surdo ruído dos batalhões em marcha, o luzir das baionetas, as vozes de comando, o galopar dos cavalos, o brilho dos capacetes, o céuresplandecente, como um largo pavilhão azul, tudo fazia palpitar, dava estranhos sentimentos de guerra e de glória. E todo o corpo estremecia quando aquelas poderosasmassas de gente passavam gritando:

— Viva o Imperador! Sou uma pobre mulher, mas estremeci também!A infantaria tinha passado. Rytmel fora falar com miss Shorn, que estava emcompanhia de Lady Lyons. O barão Werther, embaixador da Prússia, ficara colocado junto dela. Ia passar a artilharia e a cavalaria. O Imperador, com o seu Estado-Maior, tinha vindo colocar-se ao pé da tribuna do Jockey. Nós todos nos inclinávamos para ver os generais queo cercavam: Montauban, o que tomara Pequim; Canrobert com os seus longos cabelos brancos; a espessa figura de Bezaine; o altivo perfil triguei ro de Mac-Mahon, que viera da Algéria...

Miss Shorn era também muito olhada na tribuna do Jockey. Dizia-se que a Imperatriz lhe tinha sorrido e que madame de Talouet lhe mandara, sem a conhecer, um ramo devioletas do pólo.

Mas os olhos começavam a voltar-se para o fundo da planície, de onde a cavalaria devia partir, e corria um arrepio de entusias mo perante um tão grande poder militar. Nessamanhã falavase em certas reservas entre o gabinete de Berlim e as Tulherias. Lembrava-se

Sadova, mil coisas que eu não sei; e olhava-se muito para o barão Werther, que sorria com oseu túmido sorriso prussiano.



(continua...)

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