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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

-Homem! Está claro que há fome! Tu imaginavas talvez que o Paraíso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miséria... Em toda a parte há pobres, até na Austrália, nas minas de ouro. Onde há trabalho há proletariado, seja em Paris, seja no Douro...

O meu Príncipe teve um gesto de aflita impaciência:

-Eu não quero saber o que há no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro destes campos que são meus, há gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se há criancinhas, como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.

O Silvério sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra:

-Pois está bem de ver, meu senhor, que há para aí caseiros que são muito pobres. Quase todos... É uma miséria, que se não fosse algum socorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Exª de ver as casitas em que eles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...

-Vamos vê-la! – atulhou Jacinto com uma decisão exaltada.

E saiu logo do alpendre, sem atender à chuva, que ainda caia, mais leve e mais rala. Mas então Silvério alargou os braços diante dele, com ansiedade, como para o salvar dum precipício.

-Não! V. Exª lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e cautela e caldo de galinha...

Jacinto não se alterou na sua polidez paciente:

-Obrigado pelo seu cuidado, Silvério... Abra o seu chapéu de chuva, e avante!

Então o Procurador vergou os ombros, e, como sua Exª mandava, abriu com estrondo o imenso pára-águas, abrigou respeitosamente Jacinto, através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola suntuosa que o bom Deus mandava àquele pobre casal pôr um remoto senhor das Cidades! Atrás vinha o pequenito perdido num imenso pasmo.

Como todos os casebres da serra, o Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosa, para uma Écloga, aquela morada da Fonte, da doença e da Tristeza.

Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silvério empurrou a porta, chamando:

-Eh! tia Maria... Olá, rapariga!

E na fenda entreaberta apareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.

-Então como vai tua mãe? Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores...

Ela abriu, lentamente, e ia murmurando numa voz dolente e arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:

-Ora, coitada! como há de ir? Malzinha... malzinha.

E dentro, num gemido que subia como do chão, de entre abafos, amodorrado e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:

-Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...

O Silvério, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga:

-Não há de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão friagem!

E, sobre o ombro de Jacinto, encolhido:

-Já V. Exª vê... Muita miséria! Até lhe chove lá dentro.

E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha úmida reluzia, da chuva pingada de uma telha rota. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquela penumbra suja parecia atulhada, numa desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam forma compreensível uma arca de pau negro, e pôr cima, pendurado dum prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.

Então Jacinto, muito embaraçado, murmurou abstraidamente:

-Está bem, está bem...

E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, enquanto Silvério decerto revelava à rapariga, a presença augusta do “fidalgo”, porque a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:

-Ai! Nosso Senhor lhe dê muita boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!

Quando o Silvério, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacinto parara, olhava para mim, com os dedos trêmulos a torturar o bigode, e murmurava:

-É horrível, Zé Fernandes, é horrível!

Ao lado, o vozeirão do Silvério trovejou:

-Que queres tu outra vez, rapaz? Vai para a tua mãe, criatura!

(continua...)

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