Por Coelho Neto (1906)
Bravos frenéticos atroaram a sala. Paulo continha o hálito, temendo denunciar a sua presença e ansiava, ao mesmo tempo, por um lance do acaso, que o descobrisse à irmã.
Ela moveu-se lentamente, inclinou-se para a companheira, com o leque à boca, risonha, segredando uma confidência. O busto tremeu-lhe de leve sacudido por um risinho, a outra reboliu-se, a rir grosso. Ele hesitava sufocado, d'olhos fitos, quando Violante, como fascinada, voltou a rosto e descobriu-o.
Empalideceu, os olhos abriram-se-lhe desmedidamente, a boca ficou em hiato de espanto e, medrosa, achegou-se à companheira numa necessidade de socorro, compondo o chapéu, alisando o vestido, incerta e trêmula. De novo, rápida, lançou um olhar à porta como para certificar-se e puxou uma tosse seca, logo abafada no lencinho,
Era ela, mais linda! Animado com aquela turbação, forte diante da inesperada covardia da irmã, Paulo adiantou-se até à porta do camarote e, em voz surda, que tremia, pediu licença. A gorda voltou-se, mirou-o d'alto, mas Violante levantou-se arrebatadamente e, antes que a companheira interviesse, rompeu numa exclamação de surpresa feliz:
— Oh! Paulo!... — e, afastando, de repelão, uma cadeira, saiu à varanda.
O estudante recuou até á balaustrada do fundo, carrancudo. Os dois irmãos encararam-se em silêncio, numa comoção que os enleava e foi ela quem primeiro falou, precipitando as palavras, em voz surda e difícil, que lhe saía aos arrancos:
— Como soubeste que eu estava aqui? Quem te disse? Estás magro! Que é isso?
Mirava-o com um sorriso forçado. Ele conservava-se de cabeça baixa, verrumando a botina com a ponteira da guarda-chuva.
— Tens estado doente? Fala!
Um risinho alegre ressoou-lhe na boca vermelha e fresca.
— Olha, não te ponhas com amuos agora. Temos muito tempo para brigar, ouviste? Como vai mamãe?
Ele resmungou:
— Ainda perguntas...!? Mamãe está à morte.
— De que, meu Deus! — exclamou num doloroso espanto, juntando as mãos enluvadas.
Paulo levantou a cabeça de ímpeto e, cruzando os braços energicamente, interrogou-a em murmúrio:
— Mas tu estavas doida, Violante?
Ela baixou o olhar, encolhendo os ombros.
— Não sei. Agora está feito. Não falemos nisso.
— Ah! não falemos nisso... E nós? mamãe, eu,..? Depois duma pausa perguntou: Onde estás morando?
— Em Botafogo.
— Onde?
— Na praia.
Deu-lhe o número, descreveu-lhe a casa, entre árvores, ao fundo de um jardim.
— Desde quando?
— Há uns quinze dias.
— E antes?
— Cheguei de Buenos Aires no sábado.
— De Buenos Aires!
— Sim.
— Grande doida! E agora?
— Agora quê?
— Pretendes ficar aqui?
— Então? Onde hei de ficar?
Lançou um olhar ao camarote e, vendo a companheira voltada para a cena, chegou-se mais ao irmão.
— Nós aqui não podemos conversar. Aparece amanhã lá em casa.
— Eu?
— Então? Que tem? Olhem o inocente... — fez ela com um beicinho.
— Pensas que não tenho vergonha...?
— Vergonha de quê? Eu moro só. Vai amanhã.
— A que horas?
— Às duas.
— E mamãe?
— Mamãe... Se ela quiser ir contigo...
O bonifrate de chapéu branco encaminhava-se para o ponto em que se achavam os dois. Ela despediu-se.
— Até amanhã. Olha, o melhor é não dizeres nada a mamãe por enquanto, tem tempo.
Caminhou para a camarote, com um ruflo de sedas, mas retrocedeu, sorrindo, e segredou-lhe:
— Olha, a meu nome é Diana... não te esqueças. — Diana!
E ela, já a entrar no camarote, afirmou de cabeça, sorrindo. Paulo contemplava-a e, quando a viu de novo sentada, repuxando o chapéu, indiferente, sorrindo para a companheira, teve um assomo de revolta e esmoeu um insulto. Por fim seguiu, e pôs-se a percorrer a varanda a lentas passadas, até que, enfarado, e com uma ponta de despeito por haver sido despedido, ele, o irmão, desceu sorumbático, sentou-se a uma das mesas, pediu cognac e ali ficou a divagar, imaginando as múltiplas aventuras daquela rapariga que, depois de errar em terras estranhas, reaparecia, mais vela e mais forte, sem mácula do vício, triunfante, gloriosa na miséria infame.
Lembrou-se do dinheiro, apalpou-o, sentiu-o em volume cheio e mole. E, sacudindo a perna, ficou a banzar, inerte, numa apatia, cortada de acessos de furor. Mas aquela temerária aventura da irmã, apenas indicada em um nome — "Buenos Aires", a viagem, a instalação, o gozo bem desfrutado na opulenta cidade, a vida entre beijos e flores, em palácios monumentais, as suas noites de amor mercenário nas braços dum e doutro, foram-lhe, a pouco e pouco, despertando um árdego desejo carnal.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.