Por Raul Pompéia (1888)
Disse que me não interessavam as intrigas e preocupações gerais do salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem recorrer às modalidades de expressão — atualmente, virtualmente, que o anacronismo injusto condenou. Pouco se me davam fatos; o espírito seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sofisma da camarilha; incomodando-me a liberdade secreta, o rega-bofe às altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, iludidos no sono, traição odiosa à nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralizar os finórios, conduzir o Silvino e mostrar-lhe os sarrafos ajeitados à deslocação, trair merecidamente aos traidores. Medi as objeções: além de feia delação de voluntário da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até à hora, com uma paciência e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remédio senão iniciar-me. Os dois da noite contaram. Malheiro era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito hábeis; também quem traísse apanhava.
A minha irritação contra o sofisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum rapaz surpreendia os expedicionários da frescata, era incontinente aliciado para as vantagens e sob as ameaças. O marro fabuloso do Malheiro era a sanção.
Não quis as vantagens, mesmo murro à parte. Não que me não escaldassem as horas noturnas do chalé! Ah! o passeio livre no jardim! as grades abertas do cárcere forçado! Mas uma hesitação prendia-me, de compromissos antigos comigo mesmo, compromissos de linha reta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada; aversão ao subterfúgio; ou talvez um medo que me ocorreu por último, sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para subir.
Outro sinal de que não escapava à psicologia comum do chalé foi um acesso de furor que tive de sufocar, um dia que falaram de D. Ema diante de mim. Que me importava D. Ema? Uma boa senhora, nada mais, que me festejara com excesso de complacência, nos limites, porém, da hospitalidade de rigor para muitas pessoas amáveis. Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.
Repetiam as murmurações do Professor Crisóstomo, frioleiras de maldade. Pelas janelas gradeadas indicavam junto do muro da natação as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira, enfermeirazinha cuidadosa, com um jeito incomparável para o tratamento dos casos graves do coração. E vinham com histórias de estudantes muito mal de imaginárias moléstias... Doeu-me aquilo, como se me houvessem ferido o mais santo escrúpulo de sentimento. Uma infâmia, uma infâmia, esta afirmação de coisas improvadas!
No meio desta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer, prazer malvado, mas completo. Dormia no chalé o famoso Rômulo. Ocupava a cama inteira de ferro com a fartura de ádipo e ressonava, no extremo oposto do salão, com a mesma intensidade que o Silvino falava fino o diabo e roncava grosso. Era um dos tais da troça do Malheiro.
Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóis e saiam mais dois paus.
Uma noite que o vi descer, tive idéia de pregar-lhe uma peça. Arriscadíssima, como vão ver, mas eu contava com o concurso, depois, do interesse de todos em abafar o negócio.
Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinela o companheiro, que recolocava a grade, até que um aviso do quintal pedisse a corda. Ofereci-me para substituí-lo. O colega foi dormir.
Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa. evoquei a memória da afronta que me devia Rômulo. Era justo. Recolhi pouco a pouco a corda de lençóis, firmei forte as barras da grade e fui dormir. Chovia a potes; tanto melhor:
a injúria, que o sangue não lava, bem pode lavar uma ducha de enxurro.
Estava vingado!
No outro dia apareceu o gorducho entanguido, encatarrado, furibundo, em chinelos sem meias, calças, camisas de náufrago, miserando, cercado pelo espanto de todos e pela galhofa.
Passara a noite sob a janela pedindo misericórdia ao sarrafo impassível, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper do dia, Aristarco o foi achar no lastimoso estado.
A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a aventura. Fez-se de esquerdo.
“Ora o rapaz!...” exclamou com uma satisfação muito íntima.
E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.
CAPÍTULO XI
O Dr. Cláudio encetou uma série de preleções aos sábados, à imitação das que fazia às quintas Aristarco sobre lugares-comuns de moralidade. Filosofia, ciência, literatura, economia política, pedagogia, biografia, até mesmo política e higiene, tudo era assunto; interessantíssimas, sem pesadas minuciosidades. Depois da astronomia do diretor, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos de atenção.
Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a gênese das rochas, fecundidade infernal do incêndio primitivo, do granito, do pórfiro, primogênitos do fogo; o grande sono milenário dos sedimentos, perturbado de convulsões titânicas.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.