Por Raul Pompéia (1881)
Uma cousa, porém, observei que envenenava para mim a cordialidade das expansões: a expressão do rosto de Vildac, o senhor do castelo e pai da noiva. Mau humor talvez de hipocondria; era, contudo, insuportável aquele retraimento da testa, crispada de pequeninas rugas verticais, geralmente fixas, às vezes móveis como víboras, aquele olhar, relâmpago acerbo fuzilando a espaços, percorrendo a casa como a brisa da meia-noite nas festas macabras. Dir-se-ia odiar a alegria, aquele homem. A própria filha, a cândida noiva, não escapava à irradiação do olhar satânico detido mesmo sobre ela freqüentemente, como um auspício de maldições.
Bailava-me ainda no espírito o turbilhão dos pares sob os lustres, vertigem de cores e pedraria iluminada; mas a impressão dominante na memória era o olhar, aquele olhar duro e cruel.
As condições do aposento, vasto, onde os reflexos do fogão perdiam-se como fantasmas, frio, que mal podiam aquecer os toros em brasa, frio da umidade das lájeas, crescendo do chão, transpirando das paredes, ilimitado para cima com o teto de trevas d'onde a lâmpada saía como solta no ar, o pavor templário que eu sentia fora dos cortinados fazia avultar a indisposição nervosa que me criara a maneira fisiognomônica do estranho hóspede.
Pesava-me felizmente o sono e breve repousaria da obsessão incômoda.
Esquecia-me já a acompanhar visões mais raras, mais calmas, extintas e difusas, que me falavam ao ouvido a voz carinhosa da noiva, que desmanchavam coroas brancas, coando sorrisos num véu, que desfilavam silenciosas, parecendo-me ver a procissão austera dos antigos habitadores do solar, velhos fidalgos mortos, um depois de outro lívidos e majestosos, um depois de outro, infinitamente, cada vez mais vagos.
Ia adormecer, quando um rumor despertou-me. Excitação nervosa sem dúvida, julguei.
Não. Era por cima do leito, dentro da abóbada de madeira. Acentuava-se sensivelmente. Prestei ouvidos com a respiração suspensa.
Exatamente sobre o teto de meu aposento ficava a torre grande do castelo.
O rumor cresceu. Descia no interior da muralha de pedra. Era como passos por uma escada e um barulho de ferros ao mesmo tempo.
Instantes depois percebia mover-se uma porta. O ruído dos passos e dos ferros tornou-se distinto. Violenta horripilação sacudiu-me os membros. Levei instintivamente a mão à espada que deixara à cabeceira e esperei a visita.
A nesga do cortinado deixava-me ver. Naquele momento, acendiam-se pequeninas chamas na lareira perto da cama. Eu via adiantar-se um grande velho, descabelado, curvo, de barbas abundantes, sobre a nudez do peito espantosamente magro; o estômago fugia-lhe sob as costelas como um buraco, um andrajo inqualificável pendia-lhe dos rins. Trazia correntes nos pulsos e nos tornozelos. Pensei nas almas penadas.
O singular personagem, com um andar difícil, doloroso, acercou-se do braseiro, tiritando. Estendeu os braços para o fogo. Tinha frio o espectro.
- Ah! exclamou, este calor!... Há que tempo... há que tempo não me aqueço!...
A voz cavernosa tremia-lhe como um gorjeio de sensualidade inexprimível, debilíssima voz que parecia vir da terra ou de longe, do fundo de um século.
D'onde chegava, com efeito, aquele desgraçado? Ao meu primeiro abalo de temor sucedera a compaixão.
Vi-o olhar para o lado d'onde surgira sentidamente e longamente. Olhou depois para o chão, entregando-se a uma dor profunda. Ajoelhou-se e bateu muitas vezes com a fronte no ladrilho, soluçando como um louco.
- Meu Deus! meu Deus! repetia com angústia.
A um movimento que fiz no leito, houve um estalido. O velho ergueu-se.
- Quem está aí? gritou assustado. Há alguém nessa cama?
Respondi sentando-me e arredando bruscamente o cortinado:
- E quem me fala?
A minha presença foi de um efeito incrível.
Convulso, estrangulado pelos soluços, asfixiado pelas lágrimas, o velho ficou muito tempo impossibilitado de falar. Pediu-me com um gesto que esperasse. Faltava-lhe a voz.
- Sou, disse afinal, o mais desgraçado dos homens, o mais desgraçado... Nada mais devia dizer.Mas é tão bom falar.. Há tanto tempo que não vejo ninguém... Ah! eu devia calar-me; mas é tão grande a ventura de falar a um dos meus semelhantes!...
Não é possível caracterizar o sentimento, a miséria daquelas palavras naquela voz hesitante e longínqua.
- Nada tema, disse-me. Venha sentar-se ao pé do fogo... Compadeça-se de mim, de ummiserável. Seria um alívio ouvir-me os infortúnios.
Sem hesitação fui sentar-me à lareira, bem perto do velho. Esta prova de confiança comoveu-o. Tomou-me as mãos e cobriu-as de pranto ardente.
- Homem de coração... Por que veio dormir nesta sala onde ninguém habita?... E que rumoresforam os desta manhã e desta noite?... Que músicas?... Que novidade houve hoje no castelo?...
Quando informei que fora o casamento da filha de Vildac, o velho ergueu os braços.
- Então Vildac tem uma filha?! E hoje casou?!... Grande Deus! fazei-a feliz para sempre e... quesempre o seu: pobre coração ignore o crime!...
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.