Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Você é tola, Teté, a gente não deve se matar, dizia-lhe a mulher do Dr.

Mendes.

— Lá isso é verdade, mas você o que quer? É fado, é mania...

As conhecidas admiravam-lhe a boa disposição para o trabalho. Sentava-se à máquina às dez horas do dia, cabelos úmidos sobre a toalha de banho estendida nos ombros, e labutava três, quatro horas consecutivas a cantarolar modinhas, costurando para o fornecedor da polícia.

E sempre gorda, sadia e forte!

— Mulher mouro! dizia João da Mata aos amigos.

Uma tarde, ao voltar da rua, o amanuense entrou alegre, como se tivesse tirado a sorte grande na loteria, saboreando um charuto mau que lhe dera o Guedes. Vinha um pouco toldado.

— Olha esse jantar! bradou para dentro, atirando fora a ponta do charuto. E começou a cantar desafinadamente os Sinos de Corneville, então muito repisados:

Vai marinhei... ro,

voa ligei... ro,

velas à brisa

no espelho do mar!

E logo:

Nunca percas a esperan... ça,

quando houver temporal,

que há de vir a bonan... ça,

e depois o... final!

— À cena a Naghel, à cena a Naghel! bradava o amanuense batendo as palmas com fúria.

— Ainda mais esta! resmungou D. Terezinha na sala de jantar.

— Olha essa lambugem! tornou João enfiando pelo corredor.

Estava num de seus dias felizes. Foi até à cozinha acompanhado pelo Sultão que lhe pulava às pernas, ganindo alegre. Mariana mexia o pirão escaldado de farinha num velho alguidar de barro, com a saia arrepanhada na cintura, o casaco desabotoado, exibindo, como de costume, o seu detestável colo nu.

— Como vai isto, ó estafermo! rosnou o amanuense, espalmando a mão em cheio nas ancas da rapariga.

— Sô Janjão!... fez esta pudicamente.

E João, trauteou, fazendo festa ao cão:

Mariana diz que tem sete saias de veludo...

— Tenha modos, homem de Deus, repreendeu D. Terezinha. Tenha juízo, dêse a respeito!

— É boa! Então já não se pode ser alegre?! Ora muito obrigado!

Durante o jantar declarou que a Maria, no dia seguinte, domingo, iria passar uma semana ao Cocó, em casa da tia Joaquina, conhecida pela velha dos cajus.

— Faz ela muito bem, aprovou D. Terezinha com enfado, cortando o cozido.

E João, muito meigo, olhando por cima dos óculos:

— Você compreende, ela anda adoentada, teve outro dia aquele ameaço... não tem apetite, e o médico, o Dr. Azevedo, disse-me a mim que aquela gordura não vale nada, é toda postiça, é uma gordura falsa... Sim, a rapariga, coitada, precisa tomar o seu leitinho, descansar um pouco...

Maria, que se sentara defronte da madrinha, não pôde ocultar seu embaraço. Fez-se escarlate, e muito submissa:

— É, se a madrinha consentir...

— Ainda mais esta! Podes ir até para a China quanto mais para Cocó!... — E tu, não queres ir também? perguntou João com certa frieza.

Mas D. Terezinha torceu o beiço com desdém: — “Só se estivesse doida, credo!”

— Vá você com a sua afilhada...

Ah! se eu pudesse passar uma temporadinha fora... suspirou João. Mas qual, minha filha, não posso faltar um só dia à repartição, que o chefe não venha logo com os seus arrebatamentos: que o governo não sustenta vadios, que o empregado público deve ser infalível como o papa, e tanta asneira!... Coitado, já está velho e suspira, como eu, por uma aposentadoria. Houve um ligeiro silêncio.

— Pois é isto, tornou o amanuense limpando o bigode com a toalha. Está ouvindo, Maria? Prepara o seu bauzinho, a sua roupinha. Amanhã, depois da missa da madrugada. É para lá do Outeiro, na Aldeota, um sitiozinho, um lugar muito bom, muito saudável. A casa é que é pobre, mas ora! pobres somos nós também...

Os talheres batiam nos pratos com força, João falava mastigando, com a boca cheia, cortando o invariável e sediço lombo assado, com uma voracidade espantosa.

Galinhas debicavam debaixo da mesa, cacarejando. Sultão, muito rechonchudo, sentado nas patas traseiras, orelhas em pé, alongava o olhar súplice para cima, à espera que lhe caísse um osso ou uma pelanca. Ouvia-se o miar desesperado de um gato na cozinha. De onde em onde a voz de Mariana punha em debandada os parasitas de crista: — “Xô, galinha! Xô...”

Havia um rumor de asas pesadas, e um velho galo de cauda furta-cor estendia o pescoço num cocorocó estridente e prolongado que fazia João fechar os ouvidos, berrando para a Mariana que enxotasse “aquele demônio”.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6465666768...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →