Por Aluísio Azevedo (1881)
E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que São Brás, ou Ponta do Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de terras boas e férteis, onde se podia plantar e colher muito, que abençoadas eram elas pelas mãos de Deus. Mas, que uma vez aparecera por lá o célebre assassino Bernardo, terror do Rosário e sobressalto dos fazendeiros, e, depois de uma vida errante pelo sertão, roubando e matando, meteu-se na Ponta do Fogo e ai estourou. E desde então nesse desgraçado lugar nunca mais vingara fruto que não tivesse ressaibo de veneno, nem medrara planta sem mitinza; as águas deixavam cinza na boca, a terra, se a gente a colhia na mão, virava-se em salitre, e as flores fediam a enxofre; mas, quem comesse desses frutos, se deitasse nesse chão, se banhasse nessas águas e cheirasse aquelas flores, ficava por tal modo enfeitiçado, que não havia meio de arrancá-lo dali, porque o diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e amaciado a relva, para engodar o caminheiro incauto.
— Foi isso, continuou o que sucedeu ao pobre José do Eito, quando se meteu por cá - enfeitiçou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me lembro de o ter visto tantas vezes, coitado! todo amarelo, morrinhento e resmungão, que logo se adivinhava que o diabo lhe pregara alguma! E sempre andou assim!... um dia morreu-lhe a mulher de repente, e ele pouco depois foi varado por um tiro, que nunca mais ninguém soube donde veio. Daí em diante São Brás ficou tapera. No lugar em que morreu o José levantou-se Uma cruz, e todos os que passam por lá rezam por alma do desventurado, até encher certa conta de orações, com que ela possa descansar!... Enquanto isso não chega, vaga pela tapera a pobre alma penada, de dia que nem um pássaro negro, enorme, que canta a finados, e de noite vira-se numa feiticeira, que dança e canta, rindo como as raposas. Quando algum imprudente atravessa perto, a feiticeira o persegue de tal feitio, que o infeliz, se não estiver montado, ela o pilha com certeza!
— E se o pilha?
— Se o pilha?... Ah, nem falar nisso é bom! Se o pilha, vira-se logo toda em ossos e cai-lhe em riba, com tal fúria de pancadas, que o deixa morto!
— E depois?
— Depois, volta a alma para penitência, tendo perdido, por cada pancada que deu, vinte coroas de padre-nossos. Quando V.Sª for amanhã é bom levar na sela do seu cavalo um galhinho de arruda, e ao depois de rezar à cruz, vá sacudindo sempre até as mangueiras do Cancela, sem nunca parar com a reza que lhe ensinei!
— Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse José do Eito não se chamava José Pedro da Silva?
— Justo! V.Sª o conheceu?
— De nome.
— Pois eu conheci, perfeitamente.
E, a pedido de Raimundo, o portuguesinho descreveu o tipo José, e contou o que sabia da vida dele. O rapaz escutava tudo com um interesse religioso; não queria perder uma só daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper o narrador, para lhe fazer perguntas, a que o outro respondia em parêntesis rápidos.
— Pois a D. Quitéria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui vê-la! e olhe V.Sª que, de bonitona que era, ficou horrível. Estava mais roxa que Uma berinjela!
— Não tinha filhos?
— Nunca os teve.
— Nem o marido?... Sim... este podia ter algum filho natural...
— Não, que eu saiba, não tinha.
— Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do José?...
— Sei cá, mas...
— Alguma irmã de D. Quitéria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se lembra...
— Qual o quê!... Viviam ao contrário muito sós! D. Quitéria a única parenta que tinha era a mãe; esta andava sempre de ponta com o genro e não saia da sua fazenda, que vem a ser aquela em que está hoje o Cancela - a fazenda do Barroso! É verdade! sabe quem pode informar bem estas coisas? é o Sr. Vigário! ele ainda vive na cidade; hoje é cônego. Pois era muito unha com carne do José do Eito.
— O cônego Diogo?...
— Justamente! Ele é que era o vigário desta freguesia. Ora quanto tempo já
lá vai!...
— Ah! O cônego Diogo era o vigário desta freguesia, e muito da casa das Santiagos?...
— Sim senhor! E ele está ai, que a quem quiser ouvir as voltas que deu para desencantar São Brás! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo vitima da sua boa vontade!
— Ele também acreditava na feitiçaria?
— Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.Sª que o cônego não é homem de mentiras! Afirmava que havia em São Brás uma alma danada, e não gostava até que lhe falassem muito nisso!... Proibia-o expressamente, sob pena de excomunhão! Se acreditava? E boa! Por que foi então que ele abandonou a paróquia, tendo aqui nascido, gozando da mais alta consideração e recebendo, como recebia, presentes e mais presentes de toda a freguesia?... Eram bois, carneiros, capados, muita criação. Ele está ai na cidade, que o diga!
Raimundo caia de conjetura em conjetura.
— Ele era então bastante amigo do José da Silva? o cônego?
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.