Por Eça de Queirós (1887)
- Torto e inútil eras tu como um sarmento velho de vide, cão e filho de um cão! - gritou Gade. - Vite bem... Foi em Cafarnaum, na viela onde está a fonte, ao pé da sinagoga, que tu apareceste a Jesus, Rabi de Nazaré! Beijavas-lhe as sandálias, dizias: "Rabi, cura-me! Rabi, vê esta mão que não pode trabalhar!" E mostravas-lhe a mão, essa, a direita, seca, mirrada e negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no sabá; estavam os três chefes da sinagoga, e Elzéar, e Simeão. E todos olhavam Jesus para ver se ele ousaria curar no dia do Senhor... Tu choravas, de rojo no chão. E por acaso o Rabi repeliu-te? Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah cão, filho de um cão! O Rabi, indiferente às acusações da sinagoga, e só escutando a sua misericórdia, dissete: "estende a mão!" Tocou-a, e ela reverdeceu logo como a planta regada pelo orvalho do céu! Estava sã, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado e tremendo.
Um murmúrio de enlevo correu entre a multidão maravilhada pelo doce milagre. E o essênio exclamava, com os braços trêmulos no ar:
- Assim foi a caridade do Rabi! E estendeu-te ele a ponta do manto, como fazem os rabis de Jerusalém, para que lhe deitasses dentro um ciclo de prata? Não. Disse aos seus amigos que te dessem da provisão de lentilha... E tu largaste a correr pelo caminho refeito e ágil, gritando para o lado da tua casa: "Oh mãe, oh mãe estou curado!..." E foste tu, porco e filho de porco, que há pouco no Pretório pedias a cruz para o Rabi e gritavas por Barrabás! Não negues, boca imunda; eu ouvi-te; estava por trás de ti e via incharem-te as cordoveias do pescoço, com o furor da tua ingratidão!
Alguns, escandalizados, gritavam: "Maldito! Maldito!" Um velho, com justiceira gravidade, apanhara duas grossas pedras. E o homem de Cafarnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou surdamente:
- Não fui eu, não fui eu... Eu sou de Ramá!
Gade, furioso, agarrou-o pelas barbas:
- Nesse braço, quando o arregaçaste diante do Rabi, todos te viram duas cicatrizes curvas, como de dous golpes de foice!... E tu vais mostrá-las agora, cão e filho de um cão!
Despedaçou-lhe a manga da túnica nova; arrastou-o em redor, apertado nas suas mãos de bronze, como um bode teimoso; mostrou bem as duas cicatrizes, lívidas no pêlo ruivo; e assim o arremessou desprezivelmente para entre o povo - que, levantando o pó do caminho, perseguiu o homem de Cafarnaum com apupos e com pedradas...
Acercamo-nos de Gade sorrindo, louvando a sua fidelidade a Jesus. Ele, acalmado, estendera as mãos a um vendedor de água, que lhas purificava com um largo jorro do seu odre felpudo; depois, limpando-as à toalha de linho que lhe pendia do cinto:
- Escutai! José de Ramata reclamou o corpo do Rabi; o Pretor concedeu-lhe... Esperai-me à nona hora romana no pátio de Gamaliel... Onde ides?
Topsius confessou que íamos ao templo, por motivos intelectuais de arte, de arqueologia...
- Vão é aquele que admira pedras! - rosnou o altivo idealista.
E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bênçãos do povo que crê e ama os essênios.
Para poupar, até ao templo, a rude caminhada pelo Tiropeu e pela ponte do Xisto, tomamos duas liteiras - das que um liberto de Pôncio ultimamente alugava, junto ao Pretório, "a moda de Roma".
Cansado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no colchão de folhas secas que cheirava a murta; e lentamente começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha, temerosa, que já no Pretório me roçara de leve como a asa arrepiada de uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre nesta cidade forte dos judeus? Perdera eu irre-mediavelmente a minha individualidade de Raposo, de católico, de bacharel, contemporâneo do Times e do gás - para me tornar um homem da Antigüidade clássica, coevo de Tibério? E, dado este mirífico retrogresso nos tempos, se voltasse à minha pátria, que iria eu encontrar à beira do rio claro...
Decerto encontraria uma colônia romana; na encosta da colina mais fresca, uma edificação de pedra onde vive o procônsul; ao lado um templo pequeno de Apolo ou de Marte, coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado, onde estão os legionários; e em redor a vila lusitana, esparsa, com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas... Assim encontraria a minha pátria. E que faria lá, pobre, solitário? Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do templo, racharia a lenha das coortes para ganhar um salário romano?... Miséria incomparável!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.