Por Eça de Queirós (1878)
- Estás tão linda! - Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito dela. E com a vista muitoquebrada:
- O que eu sonhei contigo esta noite!
Mas de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E imediatamente bateram à porta, com pressa.
- Que é? - bradou Basílio furioso.
A voz cheia de ss explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava à secar. Se se encharcasse, que perdição!...
- Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me! - berrou Basílio.
- Dá-lhe o cobertor...
- Que a leve o diabo!
E Luísa, sentindo um arrepio de frio nos seus ombros nus, abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de Basílio - vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.
Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar, ao partir, nos lodaçais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava com os incensos e os almíscares das florestas aromáticas, imóvel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.
Apenas Luísa começou a sair todos os dias, Juliana pensou logo: 'Bem, vai o gajo!"
E a sua atitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza a abrir a porta, alvoroçada, quando Luísa voltava às cinco horas. E que zelo! Que exatidões! Um botão que faltasse, uma fita que se extraviava, e eram mil perdões, minha senhora", "desculpe por esta vez", muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção pela saúde dela, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...
Todavia, desde as idas ao Paraíso, o seu trabalho aumentara: todos os dias agora tinha de engomar; muitas vezes era preciso ensaboar à noite colares, rendinhas, punhos, numa bacia de latão, até às onze horas. As seis da manhã, mais cedo, já estava com o ferro às voltas. E não se queixava; até dizia a Joana:
- Ai! É um regalo ver assim uma senhora asseada!... Que as há! Credo! Não, não é por dizer,mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora tenho saúde; o trabalho não me assusta!
Não tornara a resmungar da patroa. Afirmava mesmo à Joana repetidamente:
- A senhora, ai, é uma santa! Muito boa de aturar... Não a há melhor!
O seu rosto perdera alguma coisa do tom bilioso, da contração amarga. As vezes, ao jantar ou à noite, costurando calada ao pé de Joana, à luz do petróleo, vinham-lhe sorrisos súbitos, o olhar clareava-se-lhe numa dilatação jovial.
- A Sra. Juliana tem o ar de quem está a pensar em coisas boas...
- A malucar cá por dentro, Sra. Joana! - respondia com satisfação.
Parecia perder a inveja; ouviu mesmo falar com tranqüilidade do vestido de seda que estreou num dia de festa, em setembro, a Gertrudes do doutor. Disse apenas:
- Também um dia hei de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!
Já outras vezes revelara por palavras vagas a idéia de uma abundância próxima. Joana até lhe dissera:
- A Sra. Juliana espera alguma herança?
- Talvez! - respondeu secamente.
E cada dia detestava mais Luísa. Quando pela manhã a via arrebicar-se, perfumar-se com água-de-colônia, mirar-se ao toucador cantarolando, saía do quarto porque lhe vinham venetas de ódio, tinha medo de estourar! Odiava-a pelas toaletes, pelo ar alegre, pela roupa branca, pelo homem que ia ver, por todos os seus regalos de senhora. "A cabra!" Quando ela saía ia espreitar, vê-la subir a rua, e fechando a vidraça com um risinho rancoroso:
- Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia há de chegar! Oh, se há de!
Luísa com efeito divertia-se. Saía todos os dias às duas horas. Na rua já se dizia que a do Engenheiro tinha o seu São Miguel.
Apenas ela dobrava a esquina o conciliábulo juntava-se logo a cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o peralta. Onde seria? - era a grande curiosidade da carvoeira.
- No hotel - murmurava o Paula. - Que nos hotéis é escândalo bravio. Ou talvez - acrescentavacom tédio - nalguma dessas pocilgas da Baixa!
A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada!
- Vaca solta lambe-se toda, Sra. Helena! - rosnava o Paula. - São todas o mesmo!
- Menos isso! - protestava a estanqueira. - Que eu sempre fui uma mulher honesta!
- E ela? - reclamava a carvoeira - ninguém tinha que lhe dizer!
- Falo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sedas! É uma cambada. Eu é que osei! - E acrescentava gravemente: - No povo há mais moralidade. O povo é outra raça! - E com as mãos enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, o olhar cravado no chão. - Se é! - murmurava. - Se é! - Como se estivesse positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as virtudes do povo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.