Por Eça de Queirós (1870)
No dia seguinte às onze horas da manhã, todos nós, os que ha víamos ficado nessa casafatal, nos achávamos reunidos, de rosto descoberto, em torno do cadáver. O doutor havia sido conduzido ao ponto da estrada de Sintra, em que fora tomado na véspera.F..., encarcerado durante a noite num quarto interior da casa, havia comunicado com um alemão que habitava o prédio contíguo, e passara-lhe de manhã, por um buraco feito no tabique, a carta ao doutor, publicada mais tarde no Diário de Notícias. Em seguida arromboua porta do quarto que lhe servia de cárcere, e depois de uma altercação violenta, arrancou a máscara ao primo da con dessa. Os outros dois mascarados, vendo o seu companheirodescoberto, tiraram igualmente as máscaras. Um deles era íntimo amigo de F...
— Que é isto?... Como pode isto ser?... — gritou F... exaltado. E apontando em seguida para o cadáver, continuou:- Aquele homem está morto, e foi roubado. Depressa, expli quem-se! Como pode isto ser? — Meus senhores — exclamou o mascarado alto -, o segredo que eu tenho tido em meudever guardar dentro dos muros desta casa, e que espero fique para sempre sepultado nela, pertence a uma senhora. Uma parte deste segredo, aquela que mais particu larmente nosinteressa, a que explica a presença daquele cadáver diante de nós, conhece-a este senhor.
E voltando-se para mim ao dizer estas palavras, acrescentou:- Em nome da nossa dignidade; emprazo-o pela sua honra a que declare o que sabe. — Jurei não o dizer — respondi eu -, não o direi nunca. Ao entrar aqui, em presença de um perigo que julguei iminente sobre a cabeça das pessoas mais particularmente envolvidasneste mis tério, perdi os sentidos, desmaiei mulheril e miseravelmente. Fal ta-me diante do perigo a energia física, que é a feição visível do va lor. Não imaginem, por isso, que tambémcareço de força moral pre cisa para guardar um segredo, à custa que seja da minha própria vida! Interrogado por gente mascarada, que não conhecia, era-me lícito mentir, pôr também na resposta uma máscara. Diante de gente de bem, que me interroga invocando a sua honra,o meu dever é calar-me. Previno-os de que são absolutamente inúteis to das as tentativas que fizerem para me obrigar a outra coisa.- Não é difícil de cumprir o seu dever! — Observou com ironia o mascarado alto. — O corpo daquele desgraçado não pode ficar ali por mais tempo. É urgente que tomemos uma deliberação decisiva e que salvemos a responsabilidade que pesa sobre nós, de mo do tal que fique para sempre tranquila a consciência que nos ditar o conselho que houvermos de seguir. Visto que este senhor se re cusa a principiar, começarei eu.
E traçou sobre uma folha de papel as seguintes linhas, que ia pronunciando ao mesmotempo que as escrevia.
Minha prima: «Na rua de... n-o... acham-se neste momento reunidos diante de um cadáver osseguintes homens: (seguiam-se os nossos nomes). É um tribunal supremo constituído pelo acaso e que vai julgar em derradeira e única instância o crime sujeito pela fatali dade, à nossa jurisdição. Se em presença deste tribunal a minha prima tiver que depor, peço-lhe que ofaça.»
— Perdão... — observei eu. — Peço licença para acrescentar uma linha:«A. M. C. não devolve a chave.» Ele escreveu o que ditei, assinou, dobrou o papel, e disse a um dos seus amigos:Vai já entregar este escrito à condessa de W... Meia hora depois uma carruagem que percorrera a rua a galope parou à porta do prédioem que estávamos. Rolámos para dentro da alcova o sofá em que se achava o cadáver, e cerrámos o reposteiro da sala. Abriu-se a porta, e a condessa entrou.
Seguira o alvitre que lhe propus. As vinte e quatro horas decor ridas desde que eu adeixara até ao momento de partir para ali, ti nha-as empregado em escrever com uma eloquência apaixonada e febril a história da sua desgraça. O caderno que lhe remeto en cerra, senhor redactor, a cópia da longa carta dirigida por ela a seu primo. Cedo o lugar que estavaocupando nas colunas do seu perió dico à publicação deste documento, que verdadeiramente se poderia chamar O auto de autópsia de um adultério.Depois direi o destino que demos ao cadáver, e o fim que teve a condessa.
A CONFISSÃO DELA
I
Parece-me às vezes que tudo isto se passou numa vida distan te como um romanceescrito, que me causa saudades e dor, ou uma velha confidência de que a minha alma se lembra. Mas, de repente, a realidade cai arrebatadamente sobre mim, e creio que sofro maisentão, por ter a consciência de que não devia nunca ter deixa do de sofrer. Foi bom que me determinasse a esta confissão. Con tar uma dor é consolá-la. Desde que me determinei a escrever estas confidências, há no meu peito um alívio e como um movi mento de dorescruéis que desamparam os seus recantos.
O princípio das minhas desgraças foi em Paris. Lá comecei a morrer. Lembra-me odia, a hora, a cor da relva, acordo meu vesti do. Foi no fim do penúltimo Inverno, em Maio. Ele estava também em Paris. Víamo-nos sempre. Às vezes saíamos da cidade. Íamos passar o dia a Fontainebleu, Vincenas, Bougival, para o campo. A Primavera era serena e tépida. Jáestavam floridos os lilases. Le vávamos um cabazinho da Índia com fruta, num leito de folhas de alface.
Ríamos como noivos...Havia três meses que estávamos em Paris: o conde — creio que o disse — estava na Escócia com Lorde Grenley caçando a raposa nas tapadas do príncipe de Beaufort.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.