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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Havia o que afetava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui sortent; havia os ingênuos, perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a inocência intata através dos positivos extremos; havia os entusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam à natureza o erro original da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo à parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de simpatia geral, inconfessado mas evidente, beneplácito perverso e amável de tolerância que favorece sempre a corrupção como um aplauso. Eles, os belos efebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Às vezes traziam pulseiras; ao banho triunfavam, nus, demorando atitudes de ninfa, à beira d’água, em meio da coleção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem forma. Havia os decaídos, portadores miseráveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos às vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.

Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, peludos, morenos, nodosos de músculos, largos de ossada, e outros mirrados de malícia, insaciáveis, de voz trêmula e narinas ávidas de bode, os gorduchos de beiço vermelho relaxado, fazendo praça de uma superioridade porque nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.

Ângela dominava-os a todos; vencia-os.

As janelas abertas para o quintal do diretor eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as travessas olhávamos.

Ângela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabelos, secos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flores e jogava, distribuindo por igual a todos, que ela a todos queria bem. Quando não havia muitos, às grades do salão, descuidava-se, aparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a espádua, espreguiçando-se com as mãos ambas à nuca e os cotovelos para cima, contando para a janela histórias que não acabavam mais, enquanto às axilas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz, fauna indomável das regiões quentes, afrontando a temperatura como as leoas, insensível e sobranceira.

Cantava.

Só no canto era triste; canções nostálgicas repassadas do sentimento de coisas distantes, um lar amigo de pais, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em que se ouvia o murmúrio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja à faina, acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente pobre à beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.

Às vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quisesse; impacientava-se abruptamente e desaparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilhéria; tinha um colégio também para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no ventre.

E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, com as flores, com as turbulências de criança sem modos, Ângela era a rainha da atenção e da curiosidade: inflamava-se o chalé em conflagrações de entusiasmo. Se passava algum tempo sem aparecer, colavam-se às grades, perscrutando a sombra das árvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.

E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperá-los como quem atiça o braseiro para ver a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer graduado entre o orgulho da castelã requestada de cem paladinos e a expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sofismar alguns paus da grade da última janela, três ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silêncio se fazia, a tomar fresco no jardim do diretor. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrelas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóis torcidos e voltavam às vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de prudência, não passeavam mais de dois por noite, fazendo sentinela um durante a ausência do outro.

(continua...)

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