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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

- O Sr. F. C. está em casa? perguntou Giacometo.

- Sim, senhor...

- Quero falar-lhe.

- Entre...

E a magra porteira, retirando-se pata um lado, deu caminho ao pintor.

Giacometo encaminhou-se logo para o atelier de F.C. e foi surpreendê-lo em trabalho.

- Oh! meu grande Giacometo, o que significa esta visita? Você custa tanto a aparecer...

- Sabe?... Venho aqui por causa do meu anjo...

- Ainda o teu anjo...

- É exato... Com certeza os do céu não custaram tanto trabalho a quem os fez...

- Mas em que posso eu servir-lhe...

- Vai dar-me o modelo...

- Como?!

- É muito simples... Quem é o autor do quadro n. 64 da exposição?...

- Oh!... Mas você não é homem de copiar...

- Sei... sei... O que eu quero não é o seu lindo quadro; é o precioso modelo que lhe serviu...Deve ser uma perfeição.

- É impossível achar-se cousa que mais satisfaça... É quase o meu sonho... Com algum fulgormais na fisionomia... está feito o meu anjo... Diga-me quem foi o seu modelo... Juro-lhe que qualquer despesa que haja de fazer não me amedronta...

Um sorriso amargo, inexplicável, traçou-se no rosto de F.C.

- Ai, meu caro Giacometo, eu vou apresentar-te o meu modelo... É minha sobrinha, uma órfãque minha mulher acolheu... Está comigo há meses... Talvez você a tenha visto...

- Nunca! protestou fortemente Carlo... O meu anjo não passaria despercebido!

- Pobre anjo!...

- Não o compreendo...

- Vai compreender... Espere um pouco...

F. C. afastou-se da tela diante da qual conversava com Giacometo, e, oferecendo-lhe uma cadeira, desapareceu no interior da casa.

Instantes após, voltava, impelindo delicadamente pelos ombros a mesma pessoa que recebera o nosso comendador.

- Aqui está o modelo... disse em tom de tristeza.

- O modelo? perguntou Giacometo de um modo estranho.F. C. afirmou com a cabeça.

A pobre mocinha curvava a cabeça com um acanhamento doloroso.

Esta cena foi de efeito fulminante para Carlo Giacometo. O desgraçado fixava na moça um olhar de louco.

- Ah! meu bom Carlo, as bexigas podem arruinar um modelo...

O artista da Visão deixou pender a cabeça e cobriu o rosto com a mão...

Parecia um condenado. As lágrimas passavam-se por entre os dedos e iam desaparecer-lhe na longa barba.

No dia seguinte, o visconde que fizera a Giacometo encomenda da Visão recebeu uma cartinha:

"Meu caro Sr. visconde. - Com profundo pesar declaro a V. Exa. que não me é possível de modo algum satisfazer a sua honrosa incumbência...

"Etc. - Cano Giacometo."

O visconde recorreu a outro.

Raul Pompéia

OS PARRICIDAS

De um livro de M. Fornari, Professor

de Filosofia Hermética de Milão.

Atufado no grande leito, grande e suntuoso como um catafalco, do sombrio aposento, eu revia, na indecisão imaginativa que precede o sono, os incidentes da festa, meditando a legenda de mistério que envolvia o castelo, que o fazia negro, mais do que os anos, sobre os alcantis da encosta.

A câmara a que me tinham conduzido ficava situada num dos ângulos mais afastados do edifício. Era uma espécie de cela enorme de abadia, paredes de pedra, ladrílhada de pedra e cheia da atmosfera especial dos lugares fechados e baixos. Do teto, construído em abóbada de um mosaico colossal de madeira, pendia fixamente uma lâmpada de ferro. Apagada. Os clarões da lareira divagavam pelas imensas paredes, escuras de umidade, adamascadas de mofo, e, batendo por baixo as vergas de talha dos portais, formavam sinistras esculturas e lances de sombra que subiam obliquamente.

As cortinas do leito defendiam-me em parte da grandeza lúgubre do dormitório; mas era impossível que não sofressem as idéias do influxo daquela encenação.

Pelo menos a isso quis atribuir a impertinência de pesadelo com que me perseguia uma lembrança.

Correram, entretanto, animadíssimas as bodas e parecia voltar para sempre a alegria à vivenda principesca, por tanto tempo adormecida no encerramento secular e no silêncio, abrindo então as janelas incendiadas de luz, acima da massa de arvoredo da planície, esturgindo ao clamor festivo das músicas e dos brindes.

Pelos salões, a jovem noiva distribuía-se, feita a graça, o encanto, o movimento do prazer de todos. O noivo, o altivo de Sainville, distinto, correto, era apontado ao passar, e passava sobre um tapete de comentários amáveis. E bem certo merecia a sorte venturosa de possuir o coração e o futuro da criatura adorável que desposara.

(continua...)

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