Por Aluísio Azevedo (1881)
No dia combinado, às seis horas da manhã, acharam-se Manuel e Raimundo a bordo do vaporzinho Pindaré, pertencente à então Companhia Maranhense de Navegação Costeira.
Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era incômoda, pela aglomeração dos passageiros, os quais, no dizer cediço de um de bordo, iam “como sardinhas em tigela”.
Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor... considerava Manuel. Agora já se podia viajar facilmente pelo interior da província!... Dantes é que a navegação do Itapicuru tinha os seus quês!...
E passou a narrar circunstancialmente as dificuldades primitivas da ida ao Rosário. “Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes serviços à província!... Deixasse lã falar quem falava, o único inconveniente que ele via era a — baldeação no Codó! — Isso sim! Tinha o que se lhe dizer, e devia acabar quanto antes!”
— Felizmente, concluiu, o Rosário é a primeira estação e não temos de sofrer a maldita maçada!
Ao anoitecer saltaram na Vila do Rosário, em companhia de um antigo conhecido de Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Em Um
portuguesinho de meia-idade, falador, vivo, brasileiro nos costumes e trigueiro como um caboclo.
— Venha cá pra casa e pela manhãzinha seguirá o seu caminho, oferecia ele ao negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu palácio!
Foi aceito o convite, e os três puseram-se a andar, de mala pendurada na mão.
— Sabe você, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao Bento Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da viúva por uma tuta e mea e hoje está produzindo, que é aquilo que você pode ver! O meu projeto é levantar uma engenhoca aí perto, onde fica o igarapé do Ribas; quero ver se aproveito as baixas para a cana, percebe?
E dissertava largamente sobre a sua roga, sobre as suas esperanças de prosperidade, censurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal atirou a conversa sobre o Barroso. Barroso era a fazenda no para onde se dirigiam os outros dois.
— São boas tenras, são! Muito limpas, muito abençoadas! O que foi que levantou o Luís Cancela? E é verdade! se me não engano, creio que ele uma ocasião me disse que foi você quem lhas aforou. Não é isso?
— E exato, respondeu Manuel.
— Ah! são suas?...
— Não! São deste amigo.
E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem que se mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.
— São muito boas terras!... o outro. O Cancela já por várias vezes tem-nas querido comprar.
— Compra-as agora.
E chegaram a casa.
—A minha gente está toda fora declarou o roceiro. Mas não faz mal, temos ai de sobra com que passar. Ó Gregório! — Meu senhô!
Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em voz baixa.
A noite, ao contrário do dia, fizera-se fresca. Depois da cela, cada um se estendeu na sua rede, preguiçosamente. Raimundo queixava-se de pragas e maruins; Manuel meditava os seus negócios, toscanejando, e o portuguesinho não dava tréguas à língua: falava daquelas tenras com um entusiasmo progressivo; contava maravilhas agrícolas; mostrava-se fanático pelo Rosário. E, no empenho da conversa, arrastado, chegava a mentir, exagerando tudo o que descrevia.
Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda São Brás.
— São Brás!...
E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.
— São Brás! Se conheço! E por aqui V.Sª não encontra quem não saiba a história dela!...
O outro ardia de curiosidade.
— Tenha então a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou andar por essas bandas...
Manuel adormeceu.
— Pois V.Sª não sabe a história de São Brás?... Valha-o Deus, meu caro senhor, que podia cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a reza que aprendemos com o nosso santo vigário. Olhe! quando V.Sª topar uma cruz na estrada, apeie e reze, e ao depois siga o seu caminho por diante, repetindo sempre:
“Por São Brás!
Por São Jesus!
Passo aqui,
Sem levar cruz”
Até avistar as mangueiras do Barroso: daí à riba pode seguir descansado, que lá não chega chamusco!
— Mas por que toma a gente tais precauções?
— Ora ai está onde a porca torce o rabo! E por causa do diabo de uma alma danada, que empesta essas garagens... Eu conto a V.Sª!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.