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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Entretanto Jeronimo Paes não cessava as indagações sobre o estado do Recife e dos seus habitantes sitiados.

- O que eu sei dizer é que a fome dentro da vila é de meter horror, - disse o barcaceiro. Dá-se um vintém por uma espiga de milho e não se encontra. Não há carne de espécie nenhuma. De farinha não havia nem um caroço antes de eu lá chegar. Um papagaio já serviu de galinha para caldo de um doente. O forte da população é o marisco-pedra, tirado nas coroas quando a vazante as descobre. Mas vosmecê não sabe que perigo corre o que lá os vai apanhar. Mais de cinquenta negras mariscadeiras tem caído no poder dos pés-rapados que fazem o cerco da vila. Muito pescador de marisco tem morrido de tiro.

- E porque não rompem o cerco? Para que servem os que estão dentro? Onde está o animo dessa gente? Que faz Mota? Oh que gente! Que gente!

A coisa não é tão fácil como parece. Seu governador João da Mota tem metido a cabeça muitas vezes para romper o cerco; mas os pés-rapados são muitos; têm toda a vila rodeada de corpos de guarda. Dormem ainda menos do que tetéu.

Estão sempre alerta.

- E que tem feito d. Francisco e o Camarão? Acham cedo ainda para avançar contra os sitiantes?

Ainda não puderam ser bons em nada. Os pés-rapados cada dia fazem uma das suas pelos caminhos e engenhos onde vão topando gente contraria. Se o cerco durar mais um mês, a vila entrega-se; porque à fome ninguém resiste. Fome tem cara de herege patrão.

Não há de ser assim – disse Coelho, atirando sobre a mesa junto à qual estava sentado, as cartas que acabava de ler – não há de ser assim. Em poucos dias nós os de Goiana havemos de romper o assedio e levantar nas ruas do Recife, livres de qualquer embaraço a autoridade real, agora vilmente abatida pelos rebeldes, já que os de lá não dão acordo de si. Aí tendes, Sr. Paes o que me escrevem Mota, Correia Gomes e Simão Ribeiro, acrescentou dirigindo-se a Jeronimo Paes. Lede. Quando acabardes, mandai levar ao provincial esta carta do padre João da Costa.

E voltando-se para o barcaceiro, perguntou-lhe como por encher o tempo: - Que mais, Bartolomeu?

Na botica do Rogoberto estava muito povo reunido agora mesmo. Dizia um que seu João da Cunha tem a fabrica e os moradores na vila para em caso de necessidade saírem armados contra os mascates. Dizia outro que Antonio Coelho e seu Jeronimo Paes não têm armas nem dinheiro para dar ao povo que os quiser acompanhar ao Recife.

- Qual foi o infame pé-rapado que aventurou semelhante aleivosia?

- Quem estava dizendo isto era o Ricardo.

- Ajustaremos já estas contas, disse Paes. Irei à botica para o desmentir, falarei ao povo. Isso não se atura. Hão de ver para quanto presto.

- Sim, sim, meu amigo. É da maior conveniência opor à mentira o desmentido. Ireis à botica sem falta, não é assim, Sr. Paes?

- Irei. Porque não? Irei já, agora mesmo – disse o marchante, levantando-se para sair.

- Antes de irdes, quero lembrar-vos uma providencia. Bem sabeis, Sr. Paes, que sem dinheiro não se fundam reinos. Vinde comigo até cá dentro. Acompanha-nos, Bartolomeu. Quero que vejas com teus próprios olhos as coisas quais são, a fim que possas com segurança saber quanto são infames os que nos irrogam faltas e fraquezas que não temos.

- O pavimento inferior era repartido em duas metades. Para a da frente, na qual estava a loja com todas as suas dependências, entrava-se pelo lado da rua; para a outra descia-se por uma escada que comunicava com o primeiro andar por dentro de um gabinete secreto. Coelho, Paz e Bartolomeu atravessaram esse gabinete, desceram a escada e chegaram ao pavimento, que se esclareceu à luz de um candieirinho de prata de que se munira Coelho quando teve de descer. O vão ocupava uma quinta parte do prédio. Não tinha portas nem janelas, nem sequer frestas. Era um como túmulo, sem nenhuma outra comunicação com o ar e o mundo, a não ser a que se prendia à escada. Espalhados pelo chão viam-se alguns caixões de pinho, e encostados a um canto objetos que reluziam. Coelho levantou a tampa de um desses caixões para que o barcaceiro visse o seu conteúdo. Que é que estás vendo, Bartolomeu? perguntou ele a modo de desvairado. - Armas de fogo, patrão.

- É verdade; são armas. Foste tu mesmo que as trouxeste, supondo que trazias ferragens para o engenho que estou construindo. São trezentas espingardas e duzentos bacamartes. Aquilo que reluz dali do canto são espadas, catanas e parnaíbas. Já vês que Ricardo não passa de um mentiroso, um desprezível vilão. Agora subamos. Subiram.

Ao penetrarem no gabinete, onde se escondia a escada, Coelho indicou ao barcaceiro um animal de tamanho descomunal, deitado aos pés da cama de seu uso.

- Que te parece isto, Bartolomeu? perguntou Coelho.

- Um grande cachorro. Oh que monstro!

(continua...)

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