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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Há outras favas, meio brancas e meio pretas, mas são pequenas; e estas favas se plantam a mão na entrada do inverno, e como nascem põese ao pé de cada um um pau, por onde atre-pam, como fazem em Portugal às ervilhas; e, se têm por onde atre-par, fazem grande ramada; a folha é como a dos feijões da Espanha, mas maior; a flor é branca; começam a dar a novidade no fim do inverno e dura mais de três meses. Estas favas são, em verdes, mui saborosas, e cozem-se com as cerimônias que se costumam em Portugal, e são reimosas como as do reino; e dão em cada bainha quatro e cinco favas, e depois de secas se cozem muito bem, e não criam bichos, como as da Espanha, e são muito melhores de cozer; e de uma maneira e de outra fazem muita vantagem no sabor às de Portugal, assim as declaradas como a outra casta de favas, que são brancas e pintadas de pontos negros.

Dão-se nesta terra infinidade de feijões naturais dela, uns são brancos, outros pretos, outros vermelhos, e outros pintados de branco e preto, os quais se plantam a mão, e como nascem põe-se-lhe a cada pé um pau, por onde atrepam, como se faz às ervilhas, e sobem de maneira para cima que fazem deles latadas nos quintais, e cada pé dá infinidade de feijões, os quais são da mesma feição que os da Espanha, mas têm mais compridas bainhas, e a folha e flor como as ervilhas; cozem-se estes feijões sendo secos, como em Portugal, e são mui saborosos, e enquanto são verdes cozem-se com a casca como fazem às ervilhas, e são mui desenfastiados.

Chamam os índios jerimus às abóboras-da-quaresma, que são naturais desta terra, das quais há dez ou doze castas, cada uma de sua feição; e plantam-se duas vezes no ano, em terra úmida e solta, as quais se estendem muito pelo chão, e dá cada aboboreira muita soma; mas não são tamanhas como as da casta de Portugal. Costuma o gentio cozer e assar estas abóboras inteiras por lhe não entrar água dentro, e depois de cozidas as cortam como melões, e lhes deitam as pevides fora, e são assim mais saborosas que cozidas em talhadas, e curam-se no fumo para durarem todo o ano.

As que em Portugal chamamos cabaços, chama o gentio pela sua língua geremuiê, das quais têm entre si muitas castas de diferentes feições, tirando as abóboras compridas, de que dissemos atrás. Essas abóboras ou cabaços semeia o gentio para fazer delas vasilhas para seu uso, as quais não costuma comer, mas deixam-nas estar nas aboboreiras até se fazerem duras, e como estão de vez, curam-nas no fumo, de que fazem depois vasilhas para acarretarem água, por outras pequenas bebem, outras meias levam às costas cheias de água quando caminham; e há alguns destes cabaços tamanhos que levam dois almudes e mais, nos quais guardam as sementes que hão de plantar; e costumam também cortar esses cabaços em verdes, como estão duros, pelo meio, e depois de curadas estas metades servem-lhes de gamelas, e outros despejos, e as metades dos pequenos servem-lhes de escudelas, e dão-lhes por dentro uma tinta preta, por fora outra amarela, que se não tira nunca; e estas são as suas porcelanas.

C A P Í T U L O XLVII

Em que se declara a natureza dos amendoins e para que servem.

Dos amendoins temos que dar conta particular, porque é coisa que se não sabe haver senão no Brasil, os quais nascem debaixo da terra, onde se plantam a mão, um palmo um do outro; as suas folhas são como as dos feijões da Espanha, e tem os ramos ao longo do chão. E cada pé dá um grande prato destes amendoins, que nascem nas pontas das raízes, os quais são tamanhos como bolotas, e têm a casca da mesma grossura e dureza, mas é branca e crespa, e têm dentro de cada bainha três e quatro amendoins, que são da feição dos pinhões com casca, e ainda mais grossos. Têm uma tona parda, que se lhes sai logo como a do miolo dos pinhões, o qual miolo é alvo. Comestos crus têm sabor de gravanços crus, mas comem-se assados e cozidos com a casca, como as castanhas, e são muito saborosos, e torrados fora da casca são melhores. De uma maneira e de outra é esta fruta muito quente em demasia, e causam dor de cabeça, a quem come muitos, se é doente dela. Plantam-se estes amendoins em terra solta e úmida, na qual planta e benefício dela não entra homem macho: só as índias os costumam plantar, e as mestiças; e nesta lavoura não entendem os maridos, e têm para si que se eles ou seus escravos os plantarem, que não hão de nascer. E as fêmeas os vão apanhar, e, segundo seu uso, hão de ser as mesmas que os plantem; e para durarem todo o ano curam-nos no fumo, onde os têm até vir outra novidade.

Desta fruta fazem as mulheres portuguesas todas as coisas doces, que fazem das amêndoas, e cortados os fazem cobertos de açúcar, de mistura com os confeitos. E também os curam em peças delgadas e compridas, de que fazem pinhoadas; e quem os não conhece por tal os come, se lhos dão. O próprio tempo em que se os amendoins plantam é em fevereiro, e não estão debaixo da terra mais que até maio, que é o tempo em que se lhes colhe a novidade, o que as fêmeas vão fazer com grande festa.

C A P Í T U L O XLVIII

Em que se declara quantas castas de pimenta há na Bahia.

(continua...)

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