Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Ali dentro haveria talvez um papel, uma carta, uma nota, que me revelasse o nome quedesejava conhecer. — Dei a volta à chave e entrei. No alto da escada, junto de uma porta cerrada, estava caída uma luva e dois bocados de papel. Um era meia folha pequena, lisa, em branco. Ooutro era um pedaço de envelope; tinha no alto um carimbo do correio de Lisboa com a data do dia anterior; a um canto havia inutilizada uma estampilha francesa; no sobrescrito lia-se: Mr. W. Rytmel.Este nome achava-se no álbum da condessa por baixo de dois versos ingleses.

A luva, que levantei do chão, era de mão de homem, e de pelica branca com cordõespretos. Por dentro tinha em letras azuis a marca de um luveiro de Londres. Era evidente que tinha achado o que procurava. Rytmel era o nome do morto.Abri em seguida a porta que tinha em frente de mim e estreme ci de honor. Estendido num sofá estava o cadáver. A expressão do seu rosto inculcava um sossego feliz. Parecia dormir. Apalpei-o; estava frio como mármore. Colocado perto dele estava um copo com umpouco de líquido. Era ópio.

Percorri o aposento com um relance de olhos. No forro de cetim preto do chapéu, que estava caído no chão, vi bordadas em verme lho uma coroa de barão e duas grandes letras -um W. e um R.

Não podia perder tempo. Fui para casa, sentei-me pacientemente à minha banca e abrio álbum defronte de mim na página em que estavam os versos assinados por W. Rytmel. É de saber que tenho aquela espécie de habilidade que Alexan dre Dumas considera aviltante e vilipendiosa para a inteligência: sou, como terá visto pela letra destas cartas, umexcelente calígra fo. Copiei escrupulosamente, desenhando letra a letra, por trinta ou quarenta vezes consecutivas, os dois versos que tinha patentes. Depois principiei a construir,com letras da mesma forma das que tinha copiado, outras palavras diferentes. Finalmente, depois de muito estudo e de muitos ensaios, peguei na meia folha de papel que tinha encontrado na casa em que se dera a catástrofe, e fiz em inglês com escrita que ninguém nomundo duvidaria ser a da pes soa que escreveu no álbum os versos assinados pelo nome de

Rytmel, uma declaração pessoal do suicídio por meio do ópio. Deste modo, quer mais tardeme ocorresse, quer não, o meio mais conve niente de sepultar o cadáver, as suspeitas de homicídio desapareciam.

A condessa estava salva desde que, antes demais ninguém, eu entrasse na casa ecolocasse junto do corpo o bilhete que escrevera.

Mas eu ficava sendo um falsário. Repeti a mim mesmo esta pa lavra sinistra eestremeci de horror. Era preciso achar outro meio, que eu procurava debalde. E, no entanto, o tempo corria. Veio a noite. Lembrei-me que o primo da condessa poderia vir de Cascais prevenido por ela, e cheguei a sair de casa com pregos e um marte lo para encravar afechadura da porta e retardar a entrada no pré dio onde se achava o morto. Ocorreram-me mil ideias fantásticas, cada qual mais absurda. Passei por muito longe, a pé, meditando, inquieto,nervoso, congestionado, estafado, devorado de febre, pal pando no fundo do bolso o bilhete terrível com que poderia desviar a responsabilidade da cabeça de um criminoso, tomando, todavia, para mim uma parte igual no seu remorso.

Finalmente, por volta da meia-noite, sem bem saber porquê, nem para quê, levado por uma atracção terrível, atrás de uma su prema inspiração, cingi-m e com o muro, abri a porta, penetrei na casa. Então me encontrei inesperadamente com o doutor e com a pessoaconhecida no decurso desta história pelo nome de mascarado alta. O primo da condessa, tendo chegado de Cascais ao meio-dia, acompanhado de dois amigos íntimos, inquieto pelo desapa recimento de Rytmel, que era seu hóspede e vivia comohomiziado em casa dele em Lisboa, foi ao prédio misterioso de que possuía uma chave e que sabia ser frequentado regularmente pelo inglês, e encontrou aí o cadáver. Conhecendo asrelações de Rytmel com a condessa, ponderando quanto havia de delicado na necessidade de manter o maior sigilo em volta daquela catástrofe, e julgando por outro lado indispensável que o testemunho de um médico constatasse a morte, que poderia ser apenas aparente,planeou e realizou a emboscada em que surpreendeu o doutor *** que ele sabia casualmente que passaria nessa tarde pela estrada de Sintra.Sabem o que se passou nessa noite.

VI



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6263646566...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →