Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Ela ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permitia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que ali estava, o pequeno sapato, branco, exânime, voltando a sola, sem o conforto cálido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de indústria para o qual concorrera cada dia do século industrial com um esforço, tecido impalpável, de fibras vivas, filtrando a transparência branda do sangue, invólucro sutil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espólio glorioso da estatuária pagã. Calçá-la apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dores numa tortura ardente de beijos, exalando eu próprio a alma toda em chama.

Que outra criatura eu era ao despertar! A aparição encantadora extinta; mas eu sofria da reação de trevas que sucede aos deslumbramentos.

Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma coisa insuficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de afetos.

Egbert parecia às vezes um intruso. Passeando com ele, que diferença de outrora! produzia-me o efeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só.

Não sei por que conveniência de acomodação, fui transferido para o dormitório dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passamos a nos encontrar somente à tarde, no campo.

Depois das aulas, subia para o dormitório, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.

O inspetor responsável era o Silvino. Receoso de uma represália dos grandes, o prudente bedel deixava andar.

Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pátio, como coisa absolutamente alheia à minha vida. Contava as tábuas do teto, porção de traços paralelos que se perdiam num reflexo da tinta. Às vezes lia narrativas de Dumas, que não distraiam. Em outras camas, deitados como eu, de cara para cima, cruzando os botins, alguns colegas fumavam, soprando, devagarinho, colunas de fumo que subiam verticalmente, e rodavam azuis. A um canto, no fim do salão, jogavam três parceiros, bocejantes, acentuando sem entusiasmo as alternativas do azar como uma partida de sonâmbulos. Muita vez na modorra pesada da sesta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que adivinhava li fora no terreiro abrasado, eu adormecia. À hora da aula ou do jantar, um companheiro puxava-me.

Estes intervalos de dormência sem sonho, sem idéias, sem definida cisma, eram o meu sossego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão colegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos frenéticos o pátio, sôfrego, acelerando-me cada vez mais, como se quisesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas! exatamente a substância do afamado mistério do chalé.

A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Silvino, grande caixão de pinho a meia altura do teto, com uma porta e uma janela de palmo quadrado, donde saiam emanações de roupas suadas e várias outras, cheiros indecifráveis de pouco asseio; donde saia mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.

Os rapazes furavam orifícios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Silvino. Depois disto, vinha a demografia especial da terceira classe, a distribuição por famílias regulares, ou por aproximações eventuais, conforme os caracteres, sob a divisa comum do nada haver, ou como entendiam outros nada a ver. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; comentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de sedução; improvisava-se a teoria do lar e do leito; cantava-se o hino báquico dos caprichos volantes, do entusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sérgio do Alves. Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente deles. Apostavam a ver quem seria primeiro, exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma história que tinham por sua vez jurado não contar a ninguém. Serviam-se mutuamente em pasto às boas risadas, anedotas espessas, com ou sem aplicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a crônica obscura do Ateneu redigia-se ali, em termos explícitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrúpulo das comissões investigadoras. O Silvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das melhores máximas do chalé era esta, característica: — Fica revogado o diretor.

Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinário, ali era normal e corrente. Todas as idades, desde o Cândido até o Sanches.

Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaivém silencioso das ficções, drama joco-sério dos instintos, em ilusão convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, explorando o momento efêmero da pele, novidade tenra do semblante, como elemento de artifício, deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6263646566...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →