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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Em pouco tempo estavam feitas as despesas urgentes: tintas, tela, pincéis novos. E Carlo preparava croquis, ensaiando-se para a grande execução. O fogo do seu entusiasmo foi vivamente atiçado pelo aplauso dos artistas de nota que examinaram os croquis. Houve até um pintor que pediu-lhe antecipadamente o pincel que rematasse o trabalho.

Giacometo começou. Traçou o desenho na tela. Apareceu-lhe então um sério embaraço. Faltava um modelo. Para a criança que ele queria pintar levada para o céu, possuía excelentes fotografias e as informações do visconde. Mas o anjo?...

Carlo daria à menina a expressão da felicidade metafísica de além-sepulcro, representada no sorriso incompreensível e doce das boas crianças, quando sonham com flores e passarinhos nos pequeninos sonos do berço...

A dificuldade era o anjo.

Para o rosto do anjo convergiam os esforços de Giacometo. Aí a sua verdadeira criação. Aí o momento estético da concepção, por assim dizer. Carecia-se de um modelo excepcional.

Giacometo saiu à caça.

Apesar dos seus cinqüenta anos e das suas octogenárias cãs, o pintor desenvolveu uma atividade de fanático.

Percorria as ruas observando atentamente, varava rótulas e sacadas com uns olhares sedentos. Nem uma só moça escapava-lhe. Era como D. Juan de barbas brancas.

Uma vez, andou escandalosamente atrás de uma criadinha. Não pôde falar-l. A criadinha desconfiou e apressou o passo para casa. Cano não insistiu. A criadinha, conquanto bonita, não era exatamente o seu ideal; além disso, não pareceu-lhe de um branco muito puro... Não servia.

Em outra ocasião, parou muito à vontade diante de uma jovem senhora, que na sua janela via os bondes e abanava vagarosamente um leque. Quando a moça deu com aquele sujeito todo elegante, de barbas cor de espuma, ficou admirada, e, retirando-se vivamente atirou-lhe uma risada. Giacometo não percebeu a desfeita, mas sentiu... Aquela rapariga aproximava-se bem...

Passou-lhe pelo cérebro o pensamento de apresentar-se à moça.

Por que não? O que lhe faltava era simplesmente uma pessoa que se quisesse deixar retratar em uma grande tela. Não se tratava exatamente de um modelo vivo... Que dúvida haveria...

Refletindo mais, lembrou-se da dificuldade em que se veria, caso um exame de perto lhe mostrasse que a moça não prestava. Com que cara havia de dizer:

- V. Exa. não serve para meu anjo...

Giacometo desistiu.

Desistir não é desanimar. E o pintor procurava... Visitou os arrabaldes, as ilhas da baía, fez mesmo algumas viagenzinhas... Entretanto, quando alguém que sabia da sua empresa perguntava-lhe:

- E o anjo?

- Não achei ainda!... respondia.

III

Por esse tempo abriu-se a exposição de Belas Artes. Giacometo mandara alguns quadros. Para ver que figura fazia o seu trabalho, no meio do dos demais expositores, Cano Giacometo foi visitá-la. No primeiro dia não pôde entrar. Três dias depois voltou à carga. Não havia a mesma afluência do primeiro dia. O pintor entrou...

Passou rapidamente os olhos pelas pinturas expostas na saleta fronteira à entrada, nessa onde se vê uma estátua de Pedro II, muito branca, de espada pendente à esquerda, fitando tranqüilo um cavaleiro de bronze, que galopa nos ares ao longe e acena-lhe com um rolo de papel.

Seguiu depois pelo corredor que leva à pinacoteca, e, na porta da primeira sala à direita parou. Tinha avistado um dos seus quadros.

Giacometo foi vê-lo de perto.

Entretanto, a vista encontrou-lhe uma grande tela pendurada à esquerda.

Um assunto delicado. Representava uma bela rapariguinha de quatorze ou quinze anos, braços e ombros nus, debruçada numa janela, tentando quebrar com os dedos o pedúnculo de uma rosa. A janela ou trapeira era do tamanho da moldura, de sorte que a figura parecia inclinar-se para fora do painel. Tinha uma execução magistral esse trabalho.

Giacometo sentiu-se preso pelo quadro. Esqueceu completamente os sentidos. Era o maravilhoso semblante da rapariguinha que quebrava o pedúnculo e ria para o espectador...

O pintor consultou o catálogo que lhe haviam oferecido na porta do edifício. Rezava assim:

- Sessenta e quatro. Cópia do natural; trabalho do Sr F.C. Rua da Ajuda n. ...

Que felicidade! F. C. era um pintor seu vizinho, que o tinha em muita consideração e se mostrava seu amigo...

Giacometo contemplou por mais algum tempo o belo quadro, e depois, esquecendo completamente a exposição, retirou-se apressado.

Um conhecido, que o viu andando muito precipitado, perguntou-lhe:

- Onde vai tão apressado, comendador?

- Já tenho o anjo! respondeu ele, sem saber se falava a uma pessoa que tivesse notícia de suaempresa.

Em poucos minutos chegava à rua da Ajuda e batia à porta de F.C.

Veio recebê-lo uma espécie de criada, raquítica, sem sangue e sem carne, metida em uma saia cheia de rugas verticais, que escapava-se-lhe dos ossudos quadris como de dous cabides. Parecia bem moça. Tinha, porém, o rosto escalavrado, o que duplicava-lhe a idade.

(continua...)

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