Por Adolfo Caminha (1893)
Entretanto outros viviam aí a cometer mil desatinos, a roubar, a assassinar, a iludir os incautos e tinham vida para um século inteiro, livres de congestões, de febre amarela, e de quanta doença há.
Acordou cedo e foi-se pôr à janela à espera de alguém que lhe desse notícias do presidente. O céu estava carregado de nuvens compactas, e neblinava. A casa da viúva Campelo, defronte, estava fechada; a viúva tinha ido passar uns dias com a filha no Benfica.
Passou um empregado da Estrada de Ferro, condutor de trem, com as calças arregaçadas, comendo pão. Maria chamou-o: — O Sr. sabe me dizer como vai o presidente?
— Faleceu às duas horas da madrugada, respondeu o sujeito mastigando, indiferente.
— Obrigado, disse Maria empalidecendo, e entrou imediatamente, batendo o postigo. — Coitado! foi dizendo pela casa com grande mágoa na voz. Coitado! Que pena!
— Que foi? perguntou o amanuense que subia o corredor em ceroula. — O presidente, que morreu!...
João parou assombrado como se lhe tivesse caído um raio defronte.
— Morreu, hein?!
— Disse-me agora mesmo um empregado da Estrada de Ferro.
— Realmente! E vá a gente se fiar na justiça divina! Morre um homem daqueles, da noite para o dia, como qualquer bêbado!
E lá se foi resmungando contra Deus e contra os padres.
Os sinos da Sé começaram a dobrar a finados. Aumentava a chuva, que já se ouvia chiar nas calçadas, como uma panela fervendo.
Maria entrou para o seu quarto, aflita. Essa manhã foi para ela de tristeza e desânimo. Acudiam-lhe à imaginação lembranças extravagantes, idéias lúgubres, como aves negras que pousavam de chofre num arvoredo, alvoroçadas, cantando sinistramente. Caía em abstrações prolongadas em que se punha a contar os dedos maquinalmente, como se fosse ensandecer. Apoderou-se dela um medo pueril, um inexplicável pavor das coisas sombrias, um supersticioso receio de almas do outro mundo, um mal-estar, um quer que era que lhe trancava a respiração, que lhe oprimia o peito.
Procurava disfarçar as apreensões, arrumando os trastes do quarto, mexendo nos baús, numa inquietação crescente, num vira-e-mexe cada vez mais açodado, abrindo e fechando gavetas, atarantada, com o coração aos pulos.
— O enterro! o enterro! bradou da porta a Mariana que ia às compras.
Todos correram à janela. D. Terezinha na precipitação deixou cair um copo, que se esfarinhou, e João da Mata esquecera os óculos, enfiando as mangas da camisa.
Maria arrancou como uma louca, dando um encontrão na mesa do centro da sala de visitas.
Continuava a chover, agora devagar, com uma insistência importuna, o sol a espiar por trás duma nuvem, frio indeciso, mandando, com um supremo desdém pelas coisas cá de baixo, uma réstea de luz tímida e complacente sobre a manhã úmida.
O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério.
Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta ao desfilar do préstito, o caixão levado por seis homens de preto, coberto de galões dourados debaixo da chuva miúda, o acompanhamento — uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão que tocava a funeral.
Os padres já tinham passado, na frente, com os seus acólitos, muito graves, olhando para o chão, evitando as poças de água. Um carro seguia atrás todo fechado, devagar.
E a chuva a cair e a música a tocar o funeral deixando por onde passava uma tristeza vaga que lembrava um dia de finados entre sepulturas...
D. Terezinha enxugava os olhos com a aba do casaco e João da Mata pigarreava disfarçando a comoção.
Maria ficou à janela vendo passar o resto do acompanhamento, sujeitos sem paletó, de chapéu de palha de carnaúba, outros sem chapéu...
— Que triste, meu Deus!
E entrou muito inquieta, com um frio na medula, as pupilas dilatadas, pálida, toda trêmula. Mas no meio da sala perdeu o equilíbrio — escureceu-lhe a vista, tropeçou numa cadeira e estendeu-se no chão pesadamente, como morta.
— Chega! A Maria teve uma coisa! gritou D. Terezinha, correndo para a afilhada. Chega Janjão, chega depressa!
— A água-flórida, a água-flórida, em cima da cômoda.
O amanuense precipitou-se pelo corredor a grandes passadas, atônito, aterrado, sem saber o que fizesse, seguido pelo Sultão que lhe tomou a frente ganindo.
— Jesus, o que foi?
— Sei lá, uma coisa que lhe deu de repente... Segura aí nos braços...
E ambos, João da Mata e a mulher, pálidos, muito vexados, conduziram a rapariga para a alcova, arrastando os pés com o peso.
— Chega depressa a água-flórida, mandou João abanando o rosto à doente.
D. Terezinha trouxe a garrafa e começou logo o afanoso trabalho de umedecer as têmporas de Maria, dando-lhe a cheirar o líquido, friccionando-lhe a testa com força, numa aflição.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.