Por Aluísio Azevedo (1881)
Ficaram nisto; mas a velha não podia tranqüilizar-se assim só: afigurava-se-lhe que, em tomo dela, grandes transformações se operavam. Verdade é que a morte de Maria do Carmo como que viera perturbar o ramerrão daquela panelinha de Manuel Pescada. Uma semana depois do passamento, chegara de Alcântara um irmão da defunta, e em seguida à missa do sétimo dia, carregou consigo as duas ]inconsoláveis sobrinhas. Etelvina, embrulhada no seu vestido preto, de lã, encarecera o costume de dar suspiros; Bibina, com grande abnegação, ocultara o cabelo numa coifa de retrós. D. Amância Sousellas, para carpir mais à vontade a perda da amiga, fora passar algumas semanas no recolhimento de Nossa Senhora da Anunciação e Remédios, ao calor confortável das rezas e do caldo forro do refeitório. Eufrasinha, percebendo frieza em Ana Rosa, dera-se por magoada e não lhe aparecia. “Que, de algum tempo àquela parte, notava-lhe certo aninho de constrangimento e fastio, bem aborrecido! A Anica já não era a mesma! Não sabia quem lhe pisara o cachorrinho; tinha plena convicção de estar sendo intrigada por alguma insoneira, mas também tinha alma grande e deixava correr o barco pra Caxias!” A repolhuda Lindoca igualmente se retraíra, mas esta, coitada! por desgosto das suas banhas; já não queria aparecer a pessoa alguma, de vergonha. Entrara, por conselho do pai, a dar longos passeios de madrugada, enquanto houvesse pouca gente na rua, para ver se lhe descaiam as enxúndias, mas qual! a enchente de gordura continuava bolear-lhe cada vez mais os membros. A pobre moça já não tinha feitio; quando sala era obrigada a descansar de vez em quando, provocando olhares de admiração, que a irritavam; já não podia usar botinas, ficara condenada ao sapato de pano, raso, quase redondo; as suas mãos perderam o direito de tocar nos seus quadris; trazia os braços sempre abertos; o pescoço apresentava roscas assustadoras; os olhos, o nariz e a boca ameaçavam desaparecer afogados nas bochechas Entretanto, afeiçoava-se pela linha reta, tinha predileções por tudo que era seco e escorrido, olhava com inveja para as magricelas. Freitas gastava os lazeres a contar tratados de medicina, a ver se descobria remédio contra aquele mal, o bom homem maçava-se; as cadeiras de sua casa estavam todas desconjuntadas: “Daquele modo, não lhe chegaria o ordenado só para mobília” e, como homem fino mandou fazer uma cadeira especial para Lindoca, com parafusos fortes, de madeira de lei. Viviam ambos tristes.
E tudo isto, todo esse desgosto surdo que minava na panelinha, era atirado por Maria Bárbara à conta de Raimundo. Queixava-se dele a todos, amargamente; dizia que, depois da chegada de semelhante criatura, a casa parecia amaldiçoada “Tudo agora lhe saia torto!” Chegou a pedir ao cônego que lhe benzesse o quarto e juntou à promessa da missa mais a de dez libras de cera virgem, que mandaria entregar ao cura da Sé no dia em que o cabra se pusesse ao fresco.
Mas, pouco depois, a sogra de Manuel chamou o padre em particular, e disse-lhe radiante de vitória:
— Sabe? Já descobri tudo!
— Tudo, o quê?
— O motivo de todas as desgraças, que nos têm acontecido ultimamente.
— E qual é?
— O cabra é “bode!...” — Bode?! Como?
Maria Bárbara chegou a boca ao ouvido de Diogo e segredou-lhe horripilada:
— E maçom!
— Ora o que me conta a senhora!... exclamou Diogo, fingindo uma grande indignação.
— E o que lhe digo, senhor cônego! O cabra é bode!
— Mas isso é sério?... Como veio a senhora a saber?... — Se é sério... Veja isto!
E, cheia de repugnância e trejeitos misteriosos sacou da algibeira da saia o folhetinho de capa verde, que Dias subtraíra da gaveta de Raimundo.
— Veja esta bruxaria, reverendo! Veja, e diga ao depois se o danado tem ou não parte com o cão tinhosos! Pois se eu cá senta um palpite!...
E apontava horrorizada para a brochura, em cujo frontispício havia desenhado um xadrez, duas colunas amparando dois globos terrestres e outros emblemas. O cônego apoderou-se do folheto e leu na primeira página “Lenda maçônica ou condutor das lojas regulares, segundo o rito francês reformado.
— Sim senhora! tem toda a razão! Cá estão os três pontinhos da patifaria!... patifaria!...
E leu na introdução da obra, possuindo-se de uma raiva de partido: “Maçons, penetremo-nos da nossa dignidade! A retidão de nossos votos, a união de nossos trabalhos, e a harmonia de nossos corações, alimentem sem cessar o fogo sagrado,
cuja claridade resplandecente ilumina o interior de nossos templos!”
— Sim senhora! Tem mais essa prenda... resmungou, entregando o folheto à velha; além de cabra, é bode!
E sem transição, duro:
— É preciso pôr esse homem fora de cá!
— E quanto antes!...
— O compadre está aí?
— Creio que sim, no armazém.
— Pois vou convencê-lo. Até logo.
— Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me até que seria melhor desistir de tal compra da fazenda... Esta gente, quando não tinha suja! Não imagina a arrelia que me faz vê-lo todo o santo dia na mesa de jantar ao lado de minha neta!... Também nunca esperei esta de meu genro! É preciso pôr o homem pra fora! Isto não tem jeito! As Limas já falaram muito; disse a Brígida que na quitanda do Zé Xorro lhe perguntaram se era certo que ele estava para casar com Anica... Ora isto não se atura! Cada um que ponha o caso em si!... Pois então aquele não-sei-que-diga precisa que lhe gritem aos ouvidos qual é o seu lugar?... No fim de contas quantos somos nós?!... Nada! Nada! é precioso pôr cobro a semelhante coisa. Fale a meu genro, senhor cônego fale-lhe com franqueza! Olhe pode dizer-lhe até que se ele não quiser tratar disto, eu m'encarrego de pôr a peste no olho da rua! A porta da nua é a serventia da casa! Não vê que entre paredes, onde cheira a Mendonça de Melo, se tem aquelas com um pedaço de negro! Iche cacá!
— Está bom está bom!... Não se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se tudo, com a divina ajuda de Deus!...
E o cônego foi entender-se com o negociante.
— Homem... respondeu Manuel tendo ouvido as razões do compadre, lá de recambiá-lo para o diabo, convenho! porque enfim sempre é um perigo que um pai de família tem dentro de casa!... mas essa agora de não negociar a fazenda, é pelo que não estou! Seria asnice de minha parte! E boa! Pois se o Cancela me escreveu quer entrar em negócio, e eu posso meter para a algibeira uma comissãozinha menos má, sem empregar capital algum e quase sem trabalho - hei de agora meter os pés e deixar o pobre rapaz às tontas, em risco até de cair nas mãos de algum finório!... Porque, venha cá seu compadre, mesmo deitando de parte o interesse, com quem a não ser comigo podia o Mundico, coitado! haver-se neste negócio? Também a gente deve olhar p'r'estas coisas!...
Ficou resolvida a viagem para o sábado seguinte.
Raimundo acolheu a noticia com uma satisfação que espantou a todos. “Até que afinal ia visitar o lugar em que lhe diziam do!...”
— Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe...
— Se estiver em minhas mãos...
— Esta...
— O que é?
— Coisa muito seria... Em viagem para o Rosário conversaremos.
Manuel coçou a nuca.
CAPÍTULO X
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.