Por Franklin Távora (1878)
Do lado do norte eis em que condições se achava a defesa.
Nas terras que ainda se denominam – Tanquinho – tinha o ex-alcaide-mór Manoel Cavalcanti de Lacerda sua casa de morada, a qual ficava na beira da estrada que vinha da Paraíba.
O ex-alcaide-mór sem hesitar um só momento aproveitou-se dessa importante posição. Não somente concentrou ai seus recursos, mas também mandou levantar ao longo da estrada e por dentro dos matos, trincheiras singulares, que grandes danos deveram causar aos assaltantes, se eles por ai tivessem feito a sua entrada. Mas não foi isto o que aconteceu, e assim destas amplas defesas, como das de Jorge Cavalcanti, que não o eram menos senão mais, como vimos, não se disparou um só tiro contra os da Paraíba, visto que, de tudo informados, não obstante serem grandes as cautelas tomadas e o segredo mantido sobre tais fortificações, cortando por diferentes caminhos, entraram na vila por onde não eram esperados como adiante veremos.
Cosme Cavalcanti ocupava o sobrado que ainda existe do lado direito, no fim do Beco-do-pavão e que dá para a Rua-do-meio.
Chamou para junto de se e lhe entregou o comando de varias ordenanças, que estavam de prontidão no pavimento térreo do sobrado, o alferes Diogo de Carvalho Maciel, o qual tão brilhante nome deixou por seus feitos nessa guerra. Felipe Cavalcanti, que morava na Rua-da-Soledade, e José de Barros na Rua-das-porteiras tinham também consigo gente armada, e só esperavam qualquer indicio de rompimento para caírem sobre os inimigos.
Guarnecia a cadeia o ilustre capitão Antonio Rabelo, que, por ocasião dos primeiros motins, fora destacado pelo governo para auxiliar na vila a defensão das autoridades e dos moradores pacíficos; e a todos inspirava a maior confiança.
João da Cunha trazia a sua gente no vasto armazém que ficava por baixo do sobrado por ele ocupado. Varias caixas de açúcar, que a esse tempo ainda ai se viam, porque tanto que se trocaram as primeiras hostilidades, cessaram as transações entre os agricultores e os comerciantes, haviam sido colocadas por trás das portas da frente, de modo que pudessem servir de trincheiras com avançada para o Pátio-do Carmo.
Estava sujeito a especiais perigos o ponto ocupado por João da Cunha, em conseqüência de se achar fronteiro ao convento, que era, para assim escrevermos, o quartel-general dos mascates, sendo por estes os frades, graças à influência dos da recoleta. No convento achavam-se recolhidas armas e munições mandadas de Recife para serem distribuídas pelos amotinados.
Eram estas as condições da defesa dos nobres em Goiana. Volvamos agora rápida vista-d’olhos sobre as dos seus adversários.
O plano destes era realmente tenebroso, e não ficava a dever ao da nobreza.
João da Maia, não obstante se mostrar mais moderado em sua ardência contra os senhores-de-engenho, do que ao principio, escrevera na véspera o Antonio Coelho:
‘Amanhã há de estar logo muito cedinho ai Luiz Soares com seu terço, passante de quinhentos homens.’ O próprio Luiz Soares mandara dizer a Jeronimo Paes por seu parente Joaquim Silverio:
‘Espere por mim com minha gente para almoçarmos. Queremos panelada gorda e bom vinho.’ O TundaCumbe a quem Antonio Coelho escrevera aconselhando-o a que entrasse ao mesmo tempo que Luiz Soares a fim de ser decisivo o golpe que se desfechasse sobre a nobreza, respondera dizendo que não faltaria.
Por volta das cinco horas da tarde do dia anterior ao da entrada de Gil, justamente quando em sua casa fazia
Antonio Coelho com Jeronimo Paes o computo das forças, que deviam no dia seguinte tomar Goiana, entrou na sala um pardo, escuro, corpulento, mal encarado, por nome Bartolomeu. Era o mestre de uma barcaça de Antonio Coelho, circunstancia a que talvez devia a particular confiança que nele tinham os principais negociantes da vila.
Ao parecer, sua chegada não era esperada, visto que deu lugar a revelarem surpresa, posto que agradável, os dois amigos.
- Já de volta, Bartolomeu! exclamou Antonio Coelho. Prósperos te foram os ventos.
- Cheguei há poucas horas, respondeu o barcaceiro.
- Então? Inquiriu Jeronimo Paes. Foste feliz na viagem? Chegaram ao Recife sem novidade os viveres que mandamos?
- Por força, respondeu Bartolomeu com segurança.
- É um herói, disse Coelho.
- Não foi sem perigo que cheguei ao meu destino. Da ilha tentaram cortar-me a marcha da embarcação. Mas eu fiz-me no largo com tão boa hora, que ainda me procuram supondo-me fora da barra, quando eu já fui e já aqui estou. E que novas nos trazes? Boas ou más? Interrogou Coelho.
- As novas mais importantes devem vir nestas cartas – disse o barcaceiro, entregando ao negociante um alentado maço de papel.
Coelho rasgou com violência o envoltório que reunia em um só volume a sua correspondência, e pôs a devorá-la.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.