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#Romances#Literatura Brasileira

A Escrava Isaura

Por Bernardo Guimarães (1875)

Todo o esforço que fizeres, — dizia-lhe o amigo, — em favor da liberdade de Isaura, será rematada loucura, que não terá outro resultado senão envolver-te em novas dificuldades, cobrindo-te de ridículo e de humilhação. Já passaste por duas decepções bem cruéis, a do baile, e esta última ainda mais triste e humilhante. Quase te fizeste réu de polícia, querendo disputar uma escrava a seu legítimo senhor. Pois bem; as seguintes serão ainda piores, eu te asseguro, e te farão ir rolando de abismo em abismo até tua completa perdição.

Atendendo a estas e mil outras considerações de Geraldo, Àlvaro procurou firmar o espírito e a vontade no propósito de renunciar ao seu amor, e a todas as suas pretensões filantrópicas sobre Isaura. Foi debalde. Depois de um mês de luta consigo mesmo, de sempre frustradas veleidades de revolta contra os impulsos do coração, Álvaro sentiu-se fraco, e compreendeu que semelhante tentativa era uma luta insensata contra a força onipotente do destino. Embalde procurou, já nas graves ocupações do espírito, já nas distrações frívolas da sociedade, um meio de apagar da lembrança a imagem da gentil cativa. Ela lhe estava sempre presente em todos os sonhos d'alma, ora resplendente de beleza e graça, donosa e sedutora como na noite do baile, ora pálida e abatida, vergada ao peso de seu infortúnio, com os pulsos algemados, cravando nele os olhos suplicantes como que a dizer-lhe:

— Vem, não me abandones; só tu podes quebrar estes ferros que me oprimem.

O espírito de Álvaro firmou-se por fim na íntima e inabalável convicção de que o céu, pondo em contato o seu destino com o daquela encantadora e infeliz escrava, tivera um desígnio providencial, e o escolhera para instrumento da nobre e generosa missão de arrebatá-la à escravidão, e dar-lhe na sociedade o elevado lugar que por sua beleza, virtudes e talentos, lhe competia.

Resolveu-se portanto, fosse qual fosse o resultado, a prosseguir nessa generosa tentativa, com a cegueira do fanatismo, senão com o arrastamento de uma inspiração providencial.

Álvaro partiu para o Rio de Janeiro. Ia ao acaso, sem plano nenhum formado, sem bem saber o que devia fazer para chegar aos seus fins; mas tinha como uma intuição vaga de que o céu lhe depararia ocasião e meios de levar a cabo a sua empresa. O que queria em primeiro lugar era colocar-se nas vizinhanças de Leôncio, a fim de poder colher informações e investigar se porventura algum recurso haveria para obrigar o senhor de Isaura a manumiti-la.

Desembarcou na corte com o fim de dirigir-se brevemente para Campos. Antes porém de partir para seu destino, procurou colher entre as pessoas do comércio algumas informações a respeito de Leôncio.

— Oh! conheço muito esse sujeito, — disse logo o primeiro negociante, a quem Álvaro se dirigiu. — Esse moço está falido, e em completa ruína. Se V. Sa. também é credor dele, pode pôr as suas barbas de molho, porque as dos vizinhos estão a arder. Essa casa bem liquida, mal dará para um rateio, em que toque cinqüenta por cento a cada credor.

Esta revelação foi para Álvaro como um relâmpago que se abre aos olhos do viandante extraviado em noite tormentosa, mostrando-lhe de repente e bem ao perto o albergue hospitaleiro que demanda.

— E V. Sa. porventura é também credor desse fazendeiro? — perguntou Álvaro.

— Infelizmente, e um dos principais...

— E a quanto montará a fortuna do tal Leôncio?

— A menos de nada, presentemente, pois como já lhe disse, o seu passivo excede talvez em mais do dobro a todos os seus bens.

— Mas esse passivo mesmo, em que soma é calculado pouco mais ou menos?

— Calcula-se aproximadamente em quatrocentos e tantos a quinhentos contos, enquanto que a fazenda de Campos, com escravos e todos os mais acessórios, não excederá talvez a duzentos. Já temos tido com esse fazendeiro todas as atenções possíveis, e lhe temos dado mais moratórias do que a lei concede; não somos obrigados a mais, e agora estamos resolvidos a cair-lhe em cima com a execução.

— E quais são os outros credores? V. S.ª quererá indicar-mos?

— E por que não? — respondeu o negociante, e passou a indicar a Álvaro os nomes e moradas dos demais credores.

De feito, a casa de Leôncio, já desde os últimos anos da vida de seu pai, ia em contínuo regresso e desmantelamento. O velho comendador, entregando-se no último quartel da vida a excessos e devassidões, que nem na mocidade são desculpáveis, vivendo quase sempre na corte, e deixando quase em completo abandono a administração da fazenda, havia já esbanjado não pequena porção de sua fortuna.

Por efeito da má administração, não só as safras começaram a escassear consideravelmente, como também o número de escravos foi-se reduzindo pela morte e pelas freqüentes fugas, sem que tanto o comendador como seu filho deixassem de substituí-los por outros novos, que iam comprando a prazo, tornando cada vez mais pesado o ônus das dívidas.

(continua...)

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