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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Dão-se na Bahia outras raízes maiores que batatas, a que os índios chamam carás, que se plantam da mesma maneira que as batatas, e como nascem põem-lhes ao pé uns paus, por onde atre-pam os ramos que lançam, como erva. Estes carás se plantam em março e colhem-se em agosto, os quais se comem cozidos e assados. como os inhames, mas têm melhor sabor; os mais deles são brancos, outros roxos, outros brancos por dentro e roxos por fora junto à casca, que são os melhores, e de mor sabor; outros são todos negros como pós; e uns e outros se curam no fumo, e duram de um ano para outro. Da massa destes carás fazem os portugueses muitos manjares com açúcar, e cozidos com carne têm muita graça.

Dão-se nesta terra outras raízes tamanhas como nozes e avelãs, que se chamam mangarás; e quando se colhem arrancam-nos debaixo da terra em touças como junças e tira-se de cada pé duzentos e trezentos juntos; e o que está no meio é como um ovo, e como um punho, que é a planta de onde nasceram os outros, o qual se guarda para se tornar a plantar; e quando o plantam se faz em talhadas, como as batatas e carás; mas plantam-se tão juntos e pela ordem com que se dispõe a couvinha, e não se cava a terra toda, mas limpa do mato a cada enxadada metem uma talhada. As folhas destes mangarás nascem em moitas como os espinafres, e são da mesma cor e feição, mas muito maiores, e assim moles como as dos espinafres, as quais se chamam taiobas, que se comem esperregadas como eles; e são mui medicinais, e também servem cozidas com o peixe. As raízes destes mangarás se comem cozidas com água e sal, e dão a casca como tremoços, e molhados em azeite e vinagre são mui gostosos; com açúcar fazem as mulheres deles mil manjares; e colhem-se duas novidades no ano; os que se plantam em março se colhem em agosto, e os que se plantam em setembro se colhem em janeiro.

Dão-se nesta terra outras raízes, que se chamam taiás, que se plantam como os mangarás, e são de feição de maçarocas, mas cintadas com uns perfilos com barbas, como raízes de canas de rota, as quais se comem cozidas na água, mas sempre ficam tesas. As folhas são grandes, de feição e cor das dos plátanos que se acham nos jardins da Espanha, aos quais chamam taiobuçu; comem-se estas folhas cozidas com peixe em lugar dos espinafres, e com favas verdes em lugar das alfaces, e têm mui avantajado sabor; os índios as comem cozidas na água e sal, e com muita soma de pimenta.

C A P Í T U L O XLV

Em que se contém o milho que se dá na Bahia e

para o que serve.

Dá-se outro mantimento em todo o Brasil, natural da mesma terra, a que os índios chamam ubatim, que é o milho de Guiné, que em Portugal chamam zaburro. As espigas que este milho dá são de mais de palmo, cuja árvore é mais alta que um homem, e da grossura das canas da roça, com nós e vãs por dentro; e dá três, quatro e mais espigas destas em cada vara. Este milho se planta por entre a mandioca e por entre as canas novas de açúcar, e colhe-se a novidade aos três meses, uma em agosto e outra em janeiro. Este milho come o gentio assado por fruto, e fazem seus vinhos com ele cozido, com o qual se embebedam, e os portugueses que comunicam com o gentio, e os mestiços não se desprezam dele, e bebem-no mui valentemente. Costuma este gentio dar suadouros com este milho cozido aos doentes de boubas, os quais tomam com o bafo dele, com o que se acham bem; dos quais suadouros se acham sãos alguns homens brancos e mestiços que se valem deles; o que parece mistério porque este milho por natureza é frio. Plantam os portugueses este milho para mantença dos cavalos e criação das galinhas e cabras, ovelhas e porcos; e aos negros de Guiné o dão por fruta, os quais o não querem por mantimento, sendo o melhor da sua terra; a cor geral deste milho é branca; há outro almecegado, outro preto, outro vermelho, e todo se planta a mão, e têm uma mesma qualidade.

Há outra casta de milho que sempre é mole, do qual fazem os portugueses muito bom pão e bolos com ovos e açúcar. O mesmo milho quebrado e pisado no pilão é bom para se cozer com caldo de carne, ou pescado, e de galinha, o qual é mais saboroso que o arroz, e de uma casta e outra se curam ao fumo, onde se conserva para se não danar; e dura de um ano para outro.

C A P Í T U L O XLVI

Em que se apontam os legumes que se dão na Bahia.

Pois que até aqui tratamos dos mantimentos naturais da terra da Bahia, é bem que digamos dos legumes que se nela criam. E comecemos pelas favas, que os índios chamam comendá, as quais são muito alvas, e do tamanho e maiores que as de Évora em Portugal; mas são delgadas e amassadas, como os figos passados.

(continua...)

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