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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Sim - suspirou o velho, - era lá, pelas festas, que eu ganhava o pão do longo ano! Nesses dias subia ao templo, ofertava a minha prece ao Senhor, e junto à porta de Susa, diante do pórtico do rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que brilhavam ao sol... Decerto, eu não tinha direito de pôr ali tenda; mas como poderia eu pagar ao templo o aluguer de um côvado de lajedo, para vender o trabalho das minhas mãos! Todos os que apregoam à sombra, debaixo do pórtico, sobre tabuleiros de cedro, são mercadores ricos que podem satisfazer a licença; alguns pagam um ciclo de ouro. Eu não podia, com crianças em casa sem pão... Por isso ficava a um canto, fora do pórtico, no pior sítio. Ali estava bem encolhido, bem calado; nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam, ou me davam com os bastões na cabeça. E ao pé de mim havia outros, pobres como eu: Eboim, de Jopé, que oferecia um óleo para fazer crescer os cabelos, e Oséias, de Ramá, que vendia flautas de barro... Os soldados da Torre Antônia que fazem a ronda, passavam por nós e desviavam os olhos. Até Menahem, que estava quase sempre de guarda pela Páscoa, nos dizia: - "está bem, ficai, contanto que não apregoeis alto". Porque todos sabiam que éramos pobres, não podíamos pagar o côvado de laje, e tínhamos nas nossas moradas crianças com fome... Na Páscoa e nos tabernáculos, vêm da terra distante peregrinos a Jerusalém; e todos me compravam uma imagem do templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua que afugentam o demônio... As vezes, ao fim do dia, tinha feito três dracmas; enchia o saião de lentilha e descia ao meu casebre, alegre, cantando os louvores

do Senhor!...

Eu, de enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava o seu longo queixume:

- Mas eis que há dias esse Rabi de Galiléia aparece no templo, cheio de palavras de cólera, ergue o bastão e arremessa-se sobre nós, bradando que aquela "era a casa de seu pai, e que nós a poluíamos!..." E dispersou todas as minhas pedras, que nunca mais vi, que eram o meu pão! Quebrou nas lajes os vasos de óleo de Eboim, de Jopé, que nem gritava, espantado. Acudiram os guardas do templo. Menahem acudiu também; até, indignado, disse ao Rabi: - "És bem duro com os pobres. Que autoridade tens tu?" E o Rabi falou "de seu pai", e reclamou contra nós a lei severa do templo. Menahem baixou a cabeça... E nós tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem encruzados nos seus tapetes de Babilônia, e com o seu lajedo bem pago, batiam palmas ao Rabi... Ah! contra esses o Rabi nada podia dizer; eram ricos, tinham pago!... E agora aqui ando! Minha filha, viúva e doente, não pode trabalhar, embrulhada a um canto nos seus trapos; e os filhos de minha filha, pequeninos, têm fome, olham para mim, vêemme tão triste e nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o sabá, vou à sinagoga de Naim que é a minha, e as raras migalhas, que sobravam do meu pão, juntava-as para aqueles que nem migalhas têm na terra... Que mal fazia eu vendendo? Em que ofendia o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lajes do templo; cada pedra era purificada pelas águas lustrais... Em verdade Jeová é grande, e sabe... Mas eu fui expulso pelo Rabi, somente porque sou pobre!

Calou-se - e as suas mãos magras, tatuadas de linhas mágicas, tremiam, limpando as longas lágrimas que o alagavam.

Bati no peito, desesperado. E a minha angústia toda era por Jesus ignorar esta desgraça, que, na violência do seu espiritualismo, suas mãos misericordiosas tinham involuntariamente criado, como a chuva benéfica por vezes, fazendo nascer a sementeira, quebra e mata uma flor isolada. Então para que não houvesse nada imperfeito na sua vida, nem dela ficasse uma queixa na terra - paguei a divida de Jesus (assim seu pai perdoe a minha!), atirando para o saião do velho moedas consideráveis, dracmas, crisos gregos de Filipe, áureos romanos de Augusto, até uma grossa peça da Cirenaica, que eu estimava por ter uma cabeça de Zeus Amon, que parecia a minha imagem. Topsius juntou a este tesouro um lepta de cobre - que tem em Judéia o valor de um grão de milho...

O velho pedreiro de Naim empalidecia, sufocado. Depois, com o dinheiro numa dobra do saião, bem apertado contra o peito, murmurou tímida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados para as alturas:

- Pai, que estás nos céus, lembra-te da face deste homem, que me deu o pão de longos dias!...

E soluçando, sumiu-se entre a turba - que, agora, de todo o átrio rumorosamente afluía, se apinhava em torno aos mastros altos do velário. O escriba aparecera, mais vermelho e limpando os beiços. Ao lado do Rabi e dos guardas do templo, Sareias viera perfilar-se encostado ao seu báculo. Depois, entre um brilho de armas, surgiram as varas brancas dos lictores; e novamente Pôncio, pálido e pesado, na sua vasta toga, subiu os degraus de bronze, retomou o assento curul.

Um silêncio caiu, tão atento, que se ouviam as buzinas tocando ao longe na Torre Mariana. Sareias desenrolou o seu escuro pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os tabulários; e eu vi as mãos gordas e morosas do escriba traçarem uma rubrica, estamparem um selo sob as linhas vermelhas que condenavam à morte Jesus de Galiléia, meu Senhor... Depois Pôncio Pilatos, com uma dignidade indolente, erguendo apenas de leve o braço nu, confirmou em nome de César a "sentença do Sanedrim, que julga em Jerusalém..."

Imediatamente Sareias atirou sobre o turbante uma ponta do manto, ficou orando, com as mãos abertas para o céu. E os fariseus triunfavam; junto a nós, dous muito velhos beijavam-se em silêncio nas barbas brancas; outros sacudiam no ar os bastões, ou lançavam sarcasticamente a aclamação forense dos romanos: "Bene et belle! Non potest melius!"

Mas de súbito o intérprete apareceu em cima de um escabelo, alteando sobre o peito o seu papagaio flamante. A turba emudecera, surpreendida. E o fenício, depois de ter consultado com o escriba, sorriu, gritou em caldaico alargando os braços cercados de manilhas de coral:

(continua...)

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