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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Chegámos à estrada: mas não víamos nada. Defronte, uma linha pálida de choupos; depois outras árvores, uma ermida no alto dum monte e, por todo o vale, a névoa agreste e áspera da chuva incessante. Parámos: à distância negrejava outro destacamento. E ali ficámos, na mesma imobilidade, sob a água, tiritando, numa fadiga mortal. Nem um gole de aguardente... Os pés inchados nas botas encharcadas torturavam-me. E pensando nos dias da paz, quando era da poltrona do meu escritório que eu via cair a chuva, vinha-me uma cólera furiosa contra o estrangeiro, um furor de.88 marchar avante, um desejo brutal de carnagem... E desesperado daquela imobilidade, acusava, na alucinação da cólera, os generais, o governo, todos os que estavam de cima e que me não mandavam marchar. Aquela inacção era odiosa. O fato colavase-nos ao corpo e sentíamos a água a escorrer ao comprido das pernas; as mãos gelavam sobre os canos das espingardas, na brisa aguda e agreste que soprava, encanada do vale.

De repente, um ruído surdo: era uma bateria de artilharia, galopando, a tomar posições: passou como um turbilhão, aos berros, na névoa, na chuva e na lama, aos concorvos dos cavalos, aos solavancos das carretas, num estalar furioso de chicotadas, e abalou, perdeu-se na bruma, com um rumor surdo e mole sobre a terra ensopada.

Subitamente, à nossa direita, rompe uma fuzilaria; agora sentimos o silvar das balas. Instintivamente abaixámo-nos, num recuo covarde de milícia bisonha...

– Firmes! – grita o alferes.

Diante de mim, um soldado abate-se como um fardo, sobre a lama... e fica imóvel, morto... Agora vemos nuvenzinhas de fumo pardo, que a chuva abala e o vento sacode ... O alferes, de repente, cambaleia cai sobre o joelho: está ferido no braço... mas ergue-se como uma mola, agita a espada, como doido, aos berros:

– Fogo!... Fogo!

Depois... não me recordo bem. O tremendo som da artilharia alucina-nos. É como num sonho, num sonambulismo, que faço fogo, ao acaso, contra a névoa parda que envolve tudo diante de mim.

Ao meu lado, o alferes cai outra vez: espolinha-se no chão aos gritos, num furor de agonia:

– Acabem-me, rapazes! Acabem-me, rapazes!...

Foi nesse momento que nos sentimos envolvidos, absorvidos por uma massa negra, que descia como uma tromba, na violência dum elemento! Partimos, correndo, atirando as armas, no meio duma gritaria ensurdecedora! ... Sinto que aquela enorme mole de gente se quebra, se dispersa, aos grupos; somos uns cem, no meio, que correm, caindo, erguendo-se, rolando na lama, espezinhados ... Tenho uma vaga consciência de que é a derrota, a debandada, o pânico das milícias... e fujo, fujo com uma amargura exasperada, gritando sem saber porquê, na ânsia abjecta de achar um canto, uma casa, um buraco...

Recordo-me de ver, naquela carreira, diante de mim, um oficial em cabelo – uma figura esguedelhada e furiosa – berrando com a boca aberta, agitando a espada, querendo decerto deter a debandada. Mas a maré de gente abate-se sobre ele, embrulha-o – e eu sinto, vagamente, a minha bota escorregar sobre o seu corpo inerte e esmagado...

Oh! maldita guerra!

Como entrei em Lisboa e me achei na minha casa, realmente não sei. Sim, lembro-me de passar no Rossio, e vê-lo cheio de uma multidão horrível – toda a população dos arredores refugiando-se na fuga aterrada diante do inimigo. Era um caos de carros, de gado, de mobílias, de mulheres, gritando; uma massa brutal e apavorada, redemoinhando sobre si mesma, clamando por pão, sob a chuva implacável.

Foi em Lisboa que soube, aos fragmentos, todos os detalhes da catástrofe: as esquadras inimigas no Tejo, a cidade sem água, porque o conduto do Alviela fora cortado, a insurreição nas ruas, e uma plebe alucinada, passando do abatimento ao furor, ora arrojando-se contra as igrejas, ora pedindo armas, e juntando à confusão da derrota os horrores da demagogia!

Dias amargos! Todos os meus cabelos encaneceram.

E pensar que durante anos nos podíamos ter preparado! E pensar que, à maneira da Inglaterra, podíamos ter criado corpos de voluntários, fazendo de cada cidadão um soldado, e preparando assim, de antemão, um grande exército nacional de defesa, armado, equipado, enérgico e tendo recebido, no hábito da disciplina, o orgulho da farda...

Mas de que vale agora pensar no que se podia ter feito!.. O nosso grande mal foi o abatimento, a inércia em que tinham caído as almas! Houve ainda algum tempo em que se atribuiu todo o mal ao Governo! Acusação grotesca que ninguém hoje ousaria repetir.

Os Governos! Podiam ter criado, é certo, mais artilharia, mais ambulâncias; mas o que eles não podiam criar era uma alma enérgica ao País! Tínhamos caído numa indiferença, num cepticismo imbecil, num desdém de toda a ideia, numa repugnância de todo o esforço, numa anulação de toda a vontade... Estávamos caquécticos! O Governo, a Constituição, a própria Carta tão escarnecida, dera-nos tudo o que nos podia dar: uma liberdade ampla. Era ao abrigo dessa liberdade que a Pátria, a massa dos portugueses tinha o dever de tornar o seu País próspero, vivo, forte, digno da independência. O Governo! O País esperava dele aquilo que devia tirar de si mesmo, pedindo ao Governo que fizesse tudo o que lhe competia a ele mesmo fazer!... Queria que o Governo lhe arroteasse as terras, que o Governo criasse a sua indústria, que o Governo escrevesse os seus livros, que o Governo alimentasse os seus filhos, que o Governo erguesse os seus edifícios, que o Governo lhe desse a ideia do seu Deus!

(continua...)

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