Por Eça de Queirós (1878)
- Canta, piorrinha; canta, cabrazinha; canta, bebedazinha!...
E ela mesma, tomada subitamente de um júbilo agudo, atirou vassouradas rápidas, soltando na sua voz rachada:
- Além de amanhã termina a campanha, P-o-o-or aqui se diz...
Se tal for verdade, se não for patranha...
E com um espremido enfático:
- Se-e-rei bem feliz!
Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam em São Pedro de Alcântara.
Sebastião estivera contando a sua cena com Luísa, e como desde então a sua estima por ela crescera. Ao principio escabreara-se, sim...
- Mas teve razão! Assim de surpresa, ouvir uma daquelas! E eu levei a coisa mal, fui muito àbruta...
Depois, coitadinha, concordara logo, mostra-se muito desgostosa, toda zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lágrimas nos olhos.
- Eu disse-lhe logo que o melhor era falar ao primo, dizer o que se passava... Que te parece?
- Sim - disse vagamente Julião.
Tinha-o escutado distraído, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto térreo cavava-se, com uma cor mais biliosa.
- Então achas que fiz bem, hem?
E depois de uma pausa:
- Que ela é uma senhora de bem às direitas! As direitas, Julião!
Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada; grossas nuvens pesadas e pardas iam-se acumulando, enegrecendo para o lado da Graça por trás das colinas; um vento rasteiro passava por vezes, pondo um arrepio nas folhas das árvores.
- De maneira que agora estou descansado - resumiu Sebastião. - Não te parece?
Julião encolheu os ombros com um sorriso triste:
- Quem me dera os teus cuidados, homem! - disse.
E falou então com amargura nas suas preocupações. - Havia uma semana que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escola, e preparava-se para ele. Era a sua tábua de salvação, dizia; se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientela podia vir, e a fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza da sua superioridade não o tranqüilizava - porque enfim em Portugal, não é verdade? Nestas questões a ciência, o estudo, o talento são uma história; o principal são os padrinhos! Ele não os tinha - e o seu concorrente, um sensaborão, era sobrinho de um diretor-geral, tinha parentes na Câmara; era um colosso!
Por isso ele trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispensável meter também as suas cunhas! Mas quem?
- Tu não conheces ninguém, Sebastião?...
Sebastião lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, falava-lhe... Mas sempre ouvira dizer que a Escola não era gente de empenhos e de intriga... De resto tinham o Conselheiro Acácio...
- Uma besta! - fez Julião. - Um parlapatão. Quem faz lá caso daquilo? O teu pnmo, hem! O teuprimo parece-me bom! E necessário alguém que fale, trabalhe... - Porque acreditava muito nas influências dos empenhos, no domínio dos "personagens", nas docilidades da fortuna quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado de ameaça: - Que eu hei de lhes mostrar o que é saber as coisas, Sebastião!
Ia explicar-lhe o assunto da tese, mas Sebastião interrompeu-o:
- Ela aí vem.
- Quem?
- A Luísa.
Passava com efeito, por fora do Passeio, toda vestida de preto, só. - Respondeu à cortesia dos dois homens com um sorriso, adeusinhos da mão, um pouco corada.
E Sebastião imóvel, seguindo-a devotamente com os olhos:
- Se aquilo não respira mesmo honestidade! Vai às lojas... Santa rapariga!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.