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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Sem saber o que fizesse, pensando todavia que uma ideia qualquer me ocorreria mais tarde como desfecho possível para esta situação imprevista, tão extraordinária, guardei achave. Senti que me era preciso, primeiro que tudo, sair dali, retomar o ar livre, achar-me a sós comigo mesmo, reflectir, raciocinar.- Minha senhora — disse-lhe então -, se amanhã, até ao meio-dia, eu não lhe tiver reenviado esta chave, será sinal que me prenderam, que está tudo perdido. Se não souber mais de mim, quero dizer, se lhe não for restituída esta chave, fuja, esconda-se, faça como quiser. Interrogada, negue tudo. Eu preferirei mil vezes aceitara responsabilidade desta morte a imputar-lha, e, por aca so algum do mundo, será jamais o seu nome proferido por mim. Daqui até lá, para coordenar as suas ideias, para equilibrar a sua razão, para nãoenlouquecer, se quer um conselho de fisiologista, violente-se uni pouco, abra uma janela, sente-se diante de um caderno de papel e escreva o que se passou. Depois, queime o que escrever. O único meio de dominar uma situação como a sua, o úni co meio deverdadeiramente a compreender, é analisá-la. Houve um filósofo que deixou aos infelizes esta máxima: «Se a tua dor te aflige, faz dela um poema.» Vá escrever. Faca as suasmemórias ou faça o seu testamento, mas escreva, e queime depois. Agora, adeus. Adeus até amanhã, ou quando não, adeus para sempre.

Ela conservava sempre a atitude extática em que caíra na ca deira de braços. Tinha aboca entreaberta, o lábio inferior tremia-lhe, com esse tocante gesto infantil que toma a desolação no rosto das mulheres, e grossas lágrimas silenciosas corriam-lhe em fio pelasfaces e gotejavam lentamente nas rendas do vestido. Fez um movimento para se erguer, procurando articular uma palavra de agradecimento. Profundamente enternecido, dei um passo para trás, inclinei-me com respeito, e saí.

V

Tendo fechado a porta do aposento em que ela ficara, ao passar na sala em que primeiro estivera, ocorreu-me de repente uma ideia. Sobre uma das mesas achavam-se doisgrandes álbuns. Folheei-os rapidamente. Um deles encerrava apenas uma série de apontamentos de viagem tomados por uma só pessoa, segundo se via da uniformidade da letra a lápis e em português. Entre os apon tamentos escritos estavam colados ou pregadosnas páginas alguns especímenes de plantas e flores, e viam-se delineados vários esboços de construções e de fragmentos arquitectónicos. Era um álbum de estudos. O outro continhauma colecção de pensamentos, de máximas, de versos, de desenhos, de aguarelas, firmados por muitos nomes diversos. Eu devorava com os olhos o conteúdo de ca da lauda.

Não ousara perguntar à condessa o nome do seu amante. Compreendia que a boca delanunca mais poderia pronunciá-lo, e não obstante, eu precisava de sabê-lo, de ver letra dele.

Estava certo de que esse nome desconhecido figuraria indubitavelmente entre os que euestava lendo, que a letra desejada se encontrava nomeio dos escritos que me estavam passando pelos olhos. Como poderia, porém, adivinhá-lo, sem tempo, sem vagar, sem o sossego de espírito necessário para meditar a intenção de cada uma das frases que ia lendoF... Era-me forçoso abandonar este recurso, e o álbum que tinha nas mãos era, todavia, talvez, o único meio que me restava de poder descobrir o que desejava! Hesitei ummomento, e sai por fim, levando o livro comigo.

Apenas me achei na rua tomei um trem, que dirigi para minha casa, acantoei-me na carruagem e pus-me a ler sucessivamente cada um dos trechos em verso e em prosa, de quese compunha a colecção.

Sabia pela condessa que o morto era estrangeiro. Esta infor mação era insuficiente paraque eu o distinguisse naquela torre de Babel. De página para página ia-me surpreendendo uma nova língua. Havia francês, italiano, alemão, inglês, espanhol... O nome de Ernesto Renan aparecia sobreposto a duas palavras caldaicas: Garcin de Tassy, orientalista naSorbona, firmava um período em língua indostânica; Abd-el-Kader tinha deixado simplesmente o seu nome árabe; a princesa Dora Distria assinava de Turim um pequenotexto albanês. Nomes portugueses, apenas dois.

A leitura dos textos não me adiantava mais do que a simples inspecção da variedade dos nomes e da diferença de línguas.

Ao chegar a casa, vi que o número que a condessa me indicara era o de um prédio de um só andar, pobre de aparência, quase fron teiro à casa que eu habitava, perto de uma esquina, colocado ao lado de um prédio mais saliente, e tendo a porta num ângulo reen tranteque a escondia da parte principal da rua. Para o lado opos to até à esquina próxima havia uns armazéns desabitados. Defronte corria um velho muro, ao alto do qual sobressaíam as ramas secas de um canavial. A situação topográfica da casa onde estava o morto permitia-me, pois,entrar e sair dela sem ser visto.



(continua...)

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