Por Eça de Queirós (1901)
Ó! mas decerto eu a lera, corridamente, com a alma desatenta! E insistia em me iniciar, ele, e me conduzir, através do Livro sem igual. Eu ria. E rindo, pesado do almoço, terminava pôr consentir, e me estirava no canapé de verga. Ele, diante da mesa, direito na cadeira, abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e começava numa lenta ode sentida. Aquele grande mar da Odisséia – resplandecente e sonoro, sempre azul, sob o vôo branco das gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra as rochas de mármore das Ilhas divinas – exalava logo uma frescura salina, bem-vinda e consoladora naquela calma de Junho, em que a serra entorpecia. Depois as estupendas manhas do sutil Ulisses e os seus perigos sobre-humanos, tantas lamúrias sublimes e um anseio tão espalhado da Pátria perdida, e toda aquela intriga, em que embrulhava os heróis, lograva as Deusas, iludia o Fado, tinham um delicioso sabor ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de sutileza ou de engenho, e a vida se desenrolava com a segurança imutável com que cada manhã sempre o Sol igual nascia, e sempre centeios e milhos, regados pôr águas iguais, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Embalado pela recitação grave e monótona do meu Príncipe, eu cerrava as pálpebras docemente. Em breve um vasto tumulto, pôr Terra e Céu, me alvoroçava... E eram os rugidos de Polifemo, ou a grita dos companheiros de Ulisses roubando as vacas de Apolo. Com os olhos logo esbugalhados para Jacinto, eu murmurava: Sublime! E sempre nesse momento o engenhoso Ulisses, de carapuço vermelho e o longo remo ao ombro, surpreendia com a sua facúndia a clemência dos Príncipes, ou reclamava presentes devidos ao Hóspede, ou surripiava astutamente algum favor aos deuses. E Tormes dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as pálpebras consoladas, sob a carícia inefável do largo dizer homérico... E meio adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina Hélade, entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Ítaca...
Depois da sesta o meu Príncipe de novo se soltava para os campos. E a essa hora, sempre mais ativa, voltava com ardor aos “seus planos”, a essas culturas de luxo e elegantes oficinas que cobririam a serra de magnificências rurais. Agora andava todo no esplêndido apetite duma horta que ele concebera, imensa horta ajardinada, em que todos os legumes, clássicos ou exóticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos talhões, fechados pôr sebes de rosas, de cravos, de alfazemas, de dálias. A água das regas desceria pôr lindos córregos de louça esmaltada. Nas ruas, a sombra cairia de densas latadas de moscatel, pousando em esteios revestidos de azulejo. E o meu Príncipe desenhara o plano desta espantosa horta, a lápis vermelho, num papel imenso, que o Melchior e o Silvério, consultados, longamente contemplaram – um coçando risonhamente a nuca, o outro com os braços duramente cruzados, e o sobrolho trágico.
Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, suntuoso, dum pombal tão povoado que todo o céu de Tormes às tardes se tornaria branco e todo fremente de asas – não saíam das nossas gostosas palestras, ou dos papéis em que Jacinto os debuxava, e que se amontoavam sobre a mesa, platônicos, imóveis, entre o tinteiro de latão e o vaso com flores.
Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocara pedra, nem serra serrara madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistência reboluda e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inércia do Silvério se quedavam, encalhados, os planos do meu Príncipe, como galeras vistosas em rochas ou em lodo.
Não convinha bulir em nada (clamava o Silvério) antes das colheitas e da vindima! E depois (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande promessa) “para boas obras mês de Janeiro” porque lá ensina o ditado:
Em Janeiro – mete obreiro
Mês meante – que não ante
E, de resto, o gozo de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala pôr cima de vale e monte, os sítios privilegiados que elas aformoseariam, bastava pôr ora ao meu Príncipe, ainda mais imaginativo que operante. E, enquanto meditava estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amável esforço, se ia familiarizando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu Príncipe sofria duma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vaca para o pasto. Nunca ele então se demoraria a conversar com os moços, quando à borda dum caminho ou num campo em monda eles se endireitavam de chapéu na mão, num respeito de velha vassalagem. Decerto o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor toda a imensa distância que se alargava desde a sua complicada supercivilização até a rude simplicidade daquelas almas naturais: - mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorância da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de ocupações e de interesses, que para os outros eram supremos e quase religiosos. Remia então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, tirando também o chapéu em cortesias profundas, com uma tal ênfase de polidez que eu pôr vezes receava que ele murmurasse aos jornaleiros. “Tenha V. Exª muito boas-tardes... Criado de V. Exª!”
Mas agora, depois daquelas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda frágil) a época das sementeiras e das ceifas, e que as árvores de fruta se semeiam no Inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descansadamente o trabalho, dizer coisas afáveis e vagas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.