Por Raul Pompéia (1888)
Os exames orais eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela Rua dos Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além destes, enchia-se o saguão da escada com a turbamulta dos assistentes, confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades, todos os colégios representados, além dos estudantes avulsos de aulas particulares, em cujo número confundiam-se caras suspeitas de farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.
O Ateneu era invejado. Vitimas do uniforme, os discípulos de Aristarco passeavam entre os grupos dos colégios rivais, sofrendo dichotes, com uma paciência recomendada de boa educação.
Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos hálitos e um cheiro de sarro intolerável; emplastravam-se de cusparadas as paredes; passeava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; ressoavam grandes gargalhadas de ship-chandler; chasqueava-se a palavrões. Alguns rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam para o alto, com as costas da mão, chapéus de palha suja, e passeavam gingando. Os mais distintos devam caminho, repuxando um canto desdenhoso de lábios, perfilando mais a elegância.
Um rebuliço extraordinário agitou a multidão. Acabava-se de descobrir na cal, coberta de epigramas e rabiscos, uma nova inscrição de muito espírito: versalhada satírica contra o Professor Courroux, da mesa de francês, rimando em u, sempre em u, de cima a baixo, com uma fertilidade pasmosa de epítetos.
Nem de propósito! na mesma ocasião entrava e lançava-se precipitadamente pela escada o terrível professor. “Não o conhece? Lá vai!” indicou-me um companheiro mais próximo.
— Não o conhecia...
Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se sabia felizmente para quem, porque era estrábico. Por ele começou o meu improvisado informante, e conhecendo que eu andava atrasado a respeito, não me deixou mais: “Se tem empenho, fura; se não tem, babau. Bancas de peixe! O peixe é caro às vezes, mas é sempre peixe de mercado. Olhe o Meireles da filosofia, aquele compridão de barba russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da Rua dos Arcos; o Simas da mesa de geografia, um pançudo apelidado esfera terrestre, mimoseiem-no com um par de galos de briga... o Barros Andrade... comprem-lhe os pontos..., aquele diabo da retórica que me bombeou há dias... falem-lhe nos versos, que não há suíças mais amáveis. O seu diretor é que os compreende. Quando entra aqui é uma onça; o próprio teto branco empalidece; levantam-se, saúdam o soberano! Agora, há homens respeitáveis: o velho Moreira, o simpático Ramiro, de sorriso patriarcal...”
Do topo da escada gritaram para o saguão que ia principiar a chamada dos de português.
Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo! Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a sopapos de ida e volta, segundo o belo costume do tempo.
Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janelas, de velhos caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos, oferecendo espessuras desiguais e densidades verdes. Um parapeito de ferro em grade dividia o salão por dois lances; o mais espaçoso para os assistentes. No outro havia duas mesas de exame; a de matemáticas, perto da entrada, a de português, mais adiante, e tão chegadas que se fundiam as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando admiráveis efeitos de aplicação das ciências exatas à filologia.
Antes da cerimônia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou, deixando cair a bengala. Olharam todos. “Não conhece?” indagou-me o oficioso companheiro.
Um sexagenário, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabelos brancos ondeando pelos ombros em bossa, sobrecasaca ilimitada riscando o chão a cada passo. “O Conselheiro Vilela, ou, melhor, o Conselheiro Tieitch, uma instituição! Vai presidir às matemáticas. Preside a tudo, conforme é preciso. Incorruptível! Catão e Bruto somados... Na banca de inglês, há uns anos, reprovava a todos... Como não?! dizia; se erram escandalosamente no tieitch! Muito depois, apanharam-no consultando o Tautphoeus: Que diabo, Barão, é este célebre tieitch em que tanto se erra?...”
Quando no dia do jantar subi para o dormitório com o Egbert, dançava-me no espírito, reduzida a miniatura, a imagem de Ema (era agradável suprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.
Sonhei: ela sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada em paro jaspe, unhas de rosa, como pétalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar, a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, para o teto, para o céu, e eu a via inatingível na altura, clara, aberta como um astro.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.