Por Raul Pompéia (1881)
- Verá... E depois mande-o à Itália, para experimentar...
- Que homem para dizer cousas bonitas!... Verdade é que você me está animando... Eu hei detrabalhar com gosto, fique certo... Olhe... além do croquis do schizzo que você viu... já executei estudos especiais das figuras... já fiz na tela o desenho do conjunto... Encontrei, porém, uma dificuldade. Falta-me um modelo... Quero dar ao meu anjo um rosto que seja ao mesmo tempo um reflexo deste mundo e do outro; um meio termo entre o idealismo do sobrenatural e a realidade terrena, que faça sentir que o anjo é do céu, mas acha-se na terra; em suma, a fusão da beleza etérea com a beleza que se apalpa. Quero um rosto que preste para receber os toques do meu ideal, uma carinha própria...
- Uma carinha de matar a gente, observou, rindo, Vítor Meireles...
- E não encontro...
- Não é fácil... não é fácil...
- Bem o vejo... Na Itália fora menos difícil. Há muita mocinha para modelo... Aqui está-se comonum deserto... muita moça bonita... modelo... nenhum! Ninguém quer ser...
- Eu tenho um... talvez...
- Bonita?
- Admirável... da cabeça aos pés...
- Que idade?
- Vinte e três anos.
- É muito velha... Em todo o caso, se ela quiser...
- Pagando-se bem, ela quer.
- Se quiser e servir... Onde mora ela?
- Rua... número...
- Hei de vê-la... Preciso ver tudo... Ando sequioso como um conquistador...
- Tem motivos.
Algumas palavras mais trocaram os pintores; depois, cada um foi para sua banda.
O comendador, ou Giacometo, como o chamara Vítor Meireles, entrou na rua do Ouvidor e desceu até à dos Ourives, examinando com interesse o semblante das jovens transeuntes.
Pela rua dos Ourives dirigiu-se à da Ajuda, e lá entrou em um corredor do lado esquerdo.
II
Entremos. Tem-se primeiro que subir uma escada. No alto da escada há uma pequena sala de recepção, forrada de azul, bem arranjada, que dá para uma outra sala muito clara, muito arejada, com janelas para a rua e fisionomia de atelier. Grande mesa ao centro, coberta de pincéis, palhetas, tintas, rolos de tela, frascos de óleo e aguarrás, em ativa confusão. Por volta, as paredes encobertas sob uma nuvem de quadros bem acabados, mas sem moldura. Nos cantos, diversos cavaletes com pinturas por concluir, dos quais destacava-se um maior sobre o qual se via uma grande tela já riscada e com algumas pinceladas a esmo... Era a casa de Carlo Giacometo, um valente pintor, educado em Roma e Milão, que vira o dia na cidade do paganismo formidável e do catolicismo dos Papas, à sombra inspiradora do zimbório de S. Pedro.
Estava no Brasil, havia dois anos somente. O seu coração de artista o trouxera. Haviam-lhe falado de um grande país, onde o homem se compreende pequeno ante a grandeza esmagadora de tudo o que o cerca. Nesse país não se sonha o ideal, porque o ideal palpita no céu profundo e azul, nas matas ínvias, na rocha esfolada pelas cachoeiras e no sol que dá fulgurações a tudo. Ele quisera ver. Sim, que Giacometo era um artista.
Tinha maneiras de olhar e movimentos que pareciam estudados à vista de um ensaiador. Estava sempre como que apertado num círculo de conveniências artísticas com que se dava perfeitamente. As próprias dobras do vestuário amarrotavam-se-lhe graciosas, tal qual se fossem corrigidas a dedo. Um artista, da periferia até o âmago.
Não admira, pois, que ele houvesse feito viagem para o Brasil por amor do belo.
Graças aos auxílios de Júlio Mill, um notável paisagista francês, que aqui viveu obscuramente e na obscuridade morreu, Giacometo estabeleceu-se. Fez relações com os artistas mais distintos da nossa roda de pintores; arranjou discípulos e encomendas, que davam-lhe bastante para levar a vida sem tocar na pequena fortuna que possuía na Itália..
Até à época da nossa narrativa, Giacometo não tinha executado senão pequenos quadros e retratos, muito apreciados pelos conhecedores, mas impróprios para fazer sensação. O seu sucesso devia ser a Visão, o belo projeto que conhecemos.
Era encomenda de um rico visconde, que queria ter no seu gabinete a lembrança viva de uma filhinha que perdera havia tempo. O visconde tomava imenso interesse pelo quadro, e não apertava os cordões da sua generosidade para recompensar o artista.
O motivo do quadro era delicadamente arrebatador, para uma alma como a de Cario Giacometo.
A recompensa era deslumbrante. Tudo convidava.
Carlo atirou-se à empresa com toda a vontade, com todo o fervor, com toda a consciência.
Não era para menos. Tratava-se da sua reputação em país estrangeiro, da sua glorificação talvez. Away!
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.