Por Aluísio Azevedo (1895)
São passados nada menos de um ano e dois meses depois que escrevi as últimas palavras que aí ficam para trás; só agora pude voltar ao meu manuscrito e talvez, quem sabe? para me despedir dele, porque é já com bastante custo que ainda lanço no papel estas linhas, trêmulas e pálidas como a própria mão que as traça.
Como estou desfeita e abatida!
Depois das enganadoras melhoras granjeadas com os ares e águas de Caxambu, o mal acordou de novo, para seguir vitoriosamente o seu negro curso. O meu terrível fígado, apesar dos cuidados médicos, aumentou sempre durante o segundo período da moléstia; e agora, já no terceiro, sinto que me matará este depauperamento geral de forças e esta cruel ascite, que me dá o absurdo aspecto de uma tísica em último grau e grávida.
Todavia, durante esse tempo fizemos uma excursão pela Europa; já de volta ao Rio de Janeiro, operei a minha hidropsia abdominal, e só hoje consigo, ainda sem deixar a cama, tentar sobre a mesa de cabeceira esta página difícil... Ai! dói-me todo o lado direito; doem-me os pulmões e sinto falta de ar!
Mas é preciso arrastar-me até ao fim das minhas revelações. Vamos: Palmira está pejada de novo; o marido, sem que ninguém lhe falasse nisso, declarou já que iria aos Estados Unidos durante o resguardo puerperal. Recomendei-lhe que não deixasse de visitar Salt Lake City, capital do território de Utah e procurasse, como o Afonso Celso, conversar com os prosélitos e sectários de José Smith, patriarca dos mórmons. A convicção filosófica dessa tribo de homens fortes pode preparar-lhe o espírito para a metade da existência que lhe falta viver ainda com a mulher.
Meu esposo goza da melhor saúde que é dado gozar a um velho, e seria completamente feliz se não foram os meus padecimentos. Creio que só aos seus desvelos de amigo e de médico, tenho ainda conseguido viver; pelo menos...
Ai! senti agora mesmo nos pulmões uma dor aguda! Não posso continuar a escrever... Bem me dizia César que seria imprudência dar-me a este trabalho...
E terminava aqui o curioso manuscrito que Leandro me deu para ler na sua pitoresca vivenda da Tijuca. As últimas páginas não pareciam escritas pelo mesmo punho que traçara as primeiras com letra tão firme e corrente. As frases finais eram quase ininteligíveis.
Devorei-o em duas secções: uma à noite, antes de dormir, até às duas horas da madrugada seguinte, e a outra entre o almoço e o jantar desse mesmo dia. Mal o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte dessa inteligente e singular senhora, a quem tão mal julgara eu até aí e por quem, depois daquela leitura, sentia a mais profunda admiração e o mais enternecido respeito; e eis em substância o que me narrou Leandro:
D. Olímpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua página interminada, nunca mais levantou a cabeça dos travesseiros, vindo a falecer da moléstia que a prostrava.
Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, César fez todos os milagres da dedicação e do amor para salvá-la. Jamais amante nenhum foi tão extremoso e digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com tamanha paixão o desviver da noiva virginal e formosa.
A casta companheira da sua velhice morreu-lhe nos braços e recebeu o seu beijo derradeiro entre as lágrimas dos filhos. Poucos momentos antes de expirar, chamou estes dois para bem junto dela e, tomando uma das mãos de Leandro, e tomando uma das mãos de Palmira, falou-lhes com a flébil sombra de voz que ainda lhe restava:
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.