Por Franklin Távora (1878)
Estas palavras consoladoras, que lhe saíram irresistivelmente dos lábios, foram como as primeiras manifestações de nova alma que lhe entrara no cérebro. Voltou imediatamente à estrada e se incorporou outra vez na tropa que já corria a marche-marche para a vila, por ordem de Gil.
Pedro de Lima não se enganava. Desde o amanhecer achava-se Luiz Soares com suas forças em Goiana e dava ai que fazer à nobreza.
Nesta vila lavrava a anarquia, ora mais, ora menos, extensamente desde 3 de julho, data do primeiro motim. Não menos de oito foram eles, numero que se elevará a muito mais, se aos movimentos das ruas, em certo modo organizados, juntarmos as disputas particulares, os desforços pessoais, as afrontas e os desagravos feitos em publico, enfim todos os conflitos naturais de duas forças políticas que se hostilizam a todo o transe no pressuposto de aniquilarse mutuamente.
Além destas circunstancias comuns a todas as guerras civis, uma circunstancia especial tornava mais perigosas e freqüentes as agressões e as represálias em Goiana – a de serem os goianistas ardentes assim nas lutas da razão, como nas do sentimento.
De data imemorial é a terra de Nunes Machado, de Arruda Câmara e de tantos outros vultos eminentes, foco de faculdades viris fácil de acender-se, difícil de apagar-se. Filha legitima do Recife – vasto laboratório, em que fermentam as paixões populares sem intermitência, ainda que fria serenidade pareça algumas vezes indicar enfraquecimento ou sono da grande alma pernambucana que tem ai a sua sede, Goiana sempre representou conspícuo papel nas agitações da província.
Conhecedores da influencia, não só comercial, mas também política da vila, puseram os mascates particular empenho em tê-la de seu lado; e neste pressuposto fizeram dela sua segunda praça forte, ou o principal ponto dos seus recursos e forças, depois da capital.
Logo que no Recife se fez sentir a falta de viveres, foi de Goiana que trataram de os enviar para os sitiados. Um óbice porém apresentou-se imediatamente, o qual muito deu que pensar aos insurgentes – a rixa em que estavam com os habitantes de Goiana, os da Ilha, rixa que tem sua natural explicação, que é a seguinte:
De Itamaracá sede de uma capitania independente de Pernambuco, por doação que a Pero Lopes de Souza fizera por carta de 1º de setembro de 1534 d. João III, fora mudada a câmara para Goiana em 1685. Despeitados, começaram desde então os moradores de Itamaracá a ter para os de Goiana o sobr’olho carregado, e não perdiam ocasião de lhes dar mostras do seu desagrado. Altos empenhos a favor da ilha, se não foram falsas informações movidas secretamente contra a vila, deram lugar a expedir-se em data de 20 de novembro de 1709 ordem regia, determinando voltasse para aquela a câmara que de lá saíra. Este ato veio converter em novos ódios ressentimentos antigos. Por isso não foi preciso, para que os da ilha tomassem o lado do governo, isto é, o da nobreza, mais do que saberem que Goiana se amotinara contra ele. Não podendo porém a primeira competir com a segunda, e havendo até suspeitas de que, para impedirem que fossem tomadas pelas autoridades da ilha os gêneros remetidos pelos mascates para o Recife, tentavam estes apossar-se dela, encarregaram os governadores militares o ajudante-de-tenente Gil Ribeiro de ocupar o Forte-deOrange. O ajudante ai esteve até que partiu, por nova ordem, para Goiana, segundo vimos.
A pacificação desta vila era na realidade empresa que exigia animo e espíritos fortíssimos. Nunca estivera tão acesa ali a fogueira das paixões partidárias, como nos últimos dias que precederam ao da chegada de Gil Ribeiro. A nobreza, em conseqüência da voz, que correra dias antes, de que o bando de Paraíba, de passagem para o Recife, tomaria em Goiana larga desforra das anteriores represálias, entendeu em fortificar-se, posto que sem ostentação, visto como os seus recursos não eram grandes, nas mais importantes embocaduras.
Nesse tempo a vasta campina que hoje se interpõe entre a ponte de Goiana, na Rua-do-rio, e o ancoradouro das barcaças, denominado Porto-da-conceição, era um sitio ocupado por Jorge Cavalcanti, no qual tinha ele grandes olarias. A casa de morada ficava no centro das terras. Do mirante punha-se debaixo das vistas toda a volta do rio Goiana que vinha do Porto-da-conceição, passava pela frente da campina e ia morrer, como ainda hoje, no lugar onde se vê o trapiche, que há poucos anos serviu de casa de teatro.
Não estava então obstruindo o rio. Barcos e sumacas chegavam até ao pé das casas da rua e ai recebiam ou deixavam os seus carregamentos.
Com o pretexto de fortalecer as barreiras para o embarque de tijolos e louça, mandou Jorge Cavalcanti levantar em vários pontos estacadas de pau-a-pique. Por trás das estacadas vastas tulhas de barro, e pela frente, no espaço da margem que ficava descoberto, largos e traiçoeiros fojos, eriçados de mortíferos espeques, davam a esta posição as vantagens da primeira fortificação da nobreza, visto que cortava quaisquer inimigas comunicações da Paraíba com a vila pelo rio.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.